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Esqueceu a Senha?

Capítulos (2 de 3) 24 Aug, 2018

2 – Jogos e segredos

Um novo dia era um novo esforço. Acordar duas vezes seguidas com raios de sol em seus olhos não melhorava o humor nem um pouco. Lem se levantou da cama ainda sonolenta e foi direto pro seu banheiro particular pra tentar despertar com um banho. Não funcionou, ainda estava com muito sono. Como se não bastasse, o sono acompanhava um mal humor que não parecia querer ir embora tão cedo. Ela voltou pro quarto e vestiu seu uniforme escolar, desta vez trocando a saia por uma bermuda capri marrom clara. Era meio velha, mas Lem achava confortável e ainda lhe servia bem. Sentou-se na frente do espelho e pegou a escova de cabelo cheia de fiozinhos dourados. Ficou observando seu reflexo por uns segundos com a escova em mãos, pensando que sua cadeira parecia mais confortável do que ela se lembrava. Lembrou-se do campo de flores perto da escola, e se viu caminhando no meio delas. Quase podia sentir o cheiro. Do mar vindo do outro lado. Ela encheu o peito de ar e soltou bem devagar, sentindo a brisa gelada bater no rosto. Então se virou como se alguém a tivesse chamado e olhou pra grande árvore que marcava o centro do grande jardim. Percebeu uma figura encostada na árvore, mas a sombra dela cobria todo seu rosto e Lem não podia ver quem era. Ela deu uns passos na direção dele e levantou a mão pra proteger os olhos da luz do sol quando derrubou a escova da mão e a deixou cair no chão fazendo um estalo de madeira no chão. Lem acordou com o susto e procurou a fonte do barulho, achando sua escova no chão atrás da mesinha do espelho. Ela tateou o chão sem se levantar da cadeira e achou o cabo. Ela puxou a escova pra si e a levantou na frente do rosto apenas pra perceber que estava faltando metade dela. O cabo havia abandonado a parte das cerdas ali no chão, e Lem não tinha mais uma escova de cabelos. Ela jogou o objeto por cima do ombro bufando e tentou arrumar os cabelos com as mãos da melhor forma que pôde. Lem tinha que admitir, não ficou grande coisa. Mas era o que dava pra ser feito. Mais tarde ela arrumava um pente ou algo parecido. Estava quase saindo do quarto quando notou o teto solar ainda aberto e lembrou-se do dia anterior. Ela deu uma corridinha e subiu na mesinha num único pulo. Botou a cabeça pra fora esperando ver a miniatura dourada de uma mulher segurando uma espada, mas pra sua surpresa, ela não estava ali. Lem olhou pra todos os lados, e deu um pulinho pra olhar pra baixo, no chão, pra confirmar se ela não teria caído. Nada. Nem sinal da coisa. Lem fechou a cara e se perguntou onde poderia estar. Ela não saiu andando sozinha. Mas estava um pouco atrasada, então deixou isso pra lá por hora e saiu às pressas tentando ser silenciosa. Assim que virou no corredor que dava pra escadaria principal deu de cara com seu pai, Victor Specchio, na frente das escadas. O único lugar que seus caminhos podiam se cruzar durante a manhã era a escadaria que levava à porta de entrada da casa, mas Lem costumava sair de casa bem mais cedo pra evitar isso. Devia ter levado mais tempo do que imaginou na frente do espelho enquanto divagava e quebrava sua escova.

- Bom dia Lem. – Victor virou para a direção da filha enquanto arrumava a gravata que não precisava ser arrumada. Sua pele clara quase refletia a luz dos lustres da casa, e seus cabelos muito pretos eram ladeados por uma pequena fila de fios alvos penteados para trás. Seu rosto era um pouco comum, seu nariz era um pouco pontudo e seu queixo angular. Seus olhos não eram tão grandes e curvavam levemente para cima nas pontas, dando uma leve impressão oriental a seu rosto. Eles tinham uma cor profundamente preta que para Lem parecia não ter brilho algum. – Tem um minuto para me acompanhar?

- ...Eu estava indo pra casa da vovó Hana antes da escola...

- Mas você ainda toma café da manhã aqui não é? Eu noto que os doces do pote na mesa de centro da cozinha sempre desaparecem. – Lem corou por culpa. Pensou que devia ser óbvio que ele sabia disso, mas preferia que não soubesse.

- B-bom, eu gosto de fazer um lanchinho antes de sair. – disse ela virando o rosto para o lado pra não mostrar a cara – Mas não costumo comer aqui.

- Então hoje você me acompanha no café. Creio que tenhamos algo para conversar. – ele saiu caminhando na frente em direção à cozinha. Lem achou engraçado notar que apesar de estar usando um terno e gravata, ele estava de pantufas. Ela deu de ombros e suspirou baixinho. Já que não podia mais fugir, teve que aceitar o convite para tomar o café da manhã com ele. O que significava que não teria muito tempo para ficar na casa da avó. Lem não sabia que horas seus pais acordavam, mas suspeitava que fosse muito mais cedo do que ela. Porém deviam demorar tanto se arrumando que só saíam de seus quartos quando se sentiam impecáveis em sua aparência. Embora a pantufa não fosse exatamente um exemplo de alguém bem-vestido. Lem teve um arrepio ao imaginar que talvez ele dormisse de terno. -Sério... Pingüins não têm esse problema... -

Ele sentou-se na ponta da mesa, deixando o lugar ao seu lado vazio. Lem deu a volta na mesa e ficou com o lugar à sua frente. Ele olhou pra ela de frente para ele e levantou uma sobrancelha. Ela o encarou por uns segundos e depois rolou os olhos pra disfarçar. Começou a comer suas torradas com queijo em silêncio, porém rapidamente, a fim de sair logo dali e ir pra casa da avó voltar para suas histórias. Victor não gostou da idéia de permanecer em silêncio e tentou iniciar uma conversa.

- Saindo daqui vai passar na casa da sua avó outra vez, certo? – perguntou usando um tom elegante na voz que o fazia soar arrogante.

- Vou, gosto de passar lá pra ler um pouco antes de ir pra escola. – Lem respondeu sinceramente, mas um pouco desconfiada do motivo do repentino interesse.

- E que tipos de livros você lê? – ele perguntou enquanto pegava uma torrada com uma xícara de café.

- Leio... hmm biografias de famosos bem sucedidos e informações históricas que acho que seria prudente saber... – inventou porque tinha certeza que ele não aprovaria seus gostos para fantasias e fuga da realidade que ela considerava inútil.

- Bom. Acho uma boa idéia que você se interesse em ser bem sucedida estudando os passos daqueles que caminharam à sua frente. – ele terminou de falar e tomou um gole grande de café. Era o tipo de comentário que Lem esperava dele. – Gostaria de fazer-me companhia em uma visita que farei a um velho amigo da família, hoje depois da escola? – perguntou o pai num tom que não aceitaria um não.

- Vou... – Lem disse sim gritando não por dentro – Pra onde é que vamos? – Lem aceitou sem pensar, afinal tinha de manter sua máscara intacta.

- Irei visitar um senhor para quem prestamos serviços há tempos. Ele tem um filho de sua idade, e acho que sua visita irá agradá-lo.

- Certo... – Ela disfarçou e revirou os olhos. Agora tinha de dar uma de babá pra algum moleque mimado e esnobe enquanto os pais conversavam sobre algo entediante por horas a fio? Lem pensou seriamente em se engasgar com aquela torrada e cair por ali mesmo.

Com o tempo gasto no café da manhã não planejado, Lem perdeu a chance de passar na casa da avó pra ficar lendo. Tinha pouco menos de meia hora para começar a primeira aula, então ela passou reto a casa de Hana e seguiu seu caminho direto até a escola. Seu mal humor havia piorado e ela descontava isso no chão com passadas pesadas e cara fechada. Quando estava chegando perto da escola, no campo das flores, ela decidiu parar um pouco para observar a paisagem. Aproximou-se da borda, fechou os olhos e respirou fundo, enchendo o peito com o aroma das flores. Soltou o ar devagar, sentindo a brisa fria. A sensação a acalmou e a fez desviar o pensamento de sua manhã. De súbito, lembrou-se do sonho que tivera durante a manhã, em que estava no jardim. Um vago vestígio surgiu em sua mente contornando a figura que estava esperando por ela na árvore. Lem tentou forçar para lembrar o rosto, mas era como tentar segurar água. Ela tentou respirar profundamente mais algumas vezes com a intenção de reativar a memória, mas ela já havia fugido pra um lugar que Lem não podia alcançar. Ela bufou pesadamente e apoiou a cabeça na cerca de segurança da borda da colina e ficou repassando mentalmente suas frustrações uma a uma, enumerando motivos pra não precisar ser legal com mais ninguém durante o resto do dia. Então finalmente sentou-se na beirada da colina e ficou olhando lá pra baixo, balançando as pernas como se estivesse numa cadeira muito grande enquanto tentava esquecer tudo e encontrar um motivo pra aproveitar o resto do dia. De repente, ela ouviu passos por perto e se desfez dos pensamentos por um momento. Era a primeira vez que via alguém passar por ali. Normalmente as pessoas pegavam o caminho mais curto, pela rua principal da cidade, que parecia mais com uma rua civilizada. Só Lem gostava de ir por ali pra ver as flores. Ela se abaixou pra não ser vista e espiou pelo canto do olho pra ver quem era. Um garoto de cabelos prateados e pele ligeiramente bronze, usando roupas elegantes demais para alguém que aparentava ter no máximo 19 anos, vinha da mesma direção que ela costumava vir. Ele caminhava altivo e quieto, aparentemente pensativo. Já estava bem perto de Lem, mas continuava indiferente, provavelmente não a notaria mesmo se estivesse à vista. Ela assumiu se tratar de um aluno, já que após a colina, não havia nada além da mansão da escola. Mas não se lembrava de ninguém com cabelos prateados. Com certeza, era uma característica a ser lembrada. Assim que ele passou por ela, Lem segurou nas barras de ferro da cerca e se pôs de pé pra tentar ver o rosto dele. Ele continuou caminhando tranquilamente sem notá-la. Ela virou a cabeça em dúvida, tentando dar mais uma espiada, quando ele se virou na direção do jardim e ela pôde ver claramente. Era o mesmo garoto do quadro na galeria da escola. Embora um pouco mais velho. Ele tinha os mesmos olhos verdes, um pouco menos brilhantes do que na pintura, e o mais importante, seus cabelos não eram castanhos. Mas mesmo assim era ele. Ou talvez algum descendente, aquela pintura podia ser muito velha, julgando pelo estado em que estava. Lem continuou espiando até o garoto virar na esquina no fim da colina e ela perder ele de vista. Ela pensou consigo mesmo que aquele era o tipo de pessoa com quem ela se daria bem. Ele não parecia ligar pro fato de ser diferente e nem pra opinião que pudessem ter dele devido à isso. Caso contrário, não teria o cabelo daquela cor. E mesmo que Lem achasse meio fútil julgar alguém assim, ele era muito atraente. Ela olhou mais uma vez pras flores e para o vasto mar que se estendia depois. Então se pôs em pé num salto e correu até a esquina onde o garoto havia virado.

-Menino estranho... Num lugar isolado... Cabelos prateados... Gostei dele. É quase tão estranho quanto Duo e Lilly. Heh, como se eu não fosse também... Mas não preciso me culpar por isso. -

Ela colocou a cabeça devagar pelo canto da colina espiando. Queria saber se ele estava mesmo indo pra escola. Ele com certeza não estudava lá, mas ele não podia estar indo pra outro lugar. Será que era um aluno novo? Ele realmente foi pra mansão da escola. Passou pela estátua de anjo que enfeitava o pátio, onde já haviam algumas poucas crianças conversando e foi para uma porta meio escondida, quase nos fundos da mansão. Lem seguiu ele quietinha e quando ele parou ela se escondeu atrás de uma árvore próxima. Ela estava com o olhar fixado nele e quase nem respirava pra não fazer barulho algum. Pareceu que aquela porta daria em alguma sala perto do jardim do fundo da escola, onde ficava a árvore onde ela e seus amigos passavam o intervalo. O jardim dava direto no corredor proibido e a galeria com obras de arte e livros antigos. Ainda não era hora de entrar a escola estava fechada e vazia por dentro. No pátio da frente haviam só algumas poucas crianças que chegavam mais cedo. O garoto mexeu na maçaneta por um instante e constatou que estava trancada. Supostamente só os professores tinham as chaves, mas ele abriu a porta e entrou. Lem se surpreendeu com a cena e ficou de olhos bem abertos. Será que o garoto tinha a chave porquê ele era da família do dono da mansão, ou ele apenas estava tentando roubar? Ele podia ter roubado a chave de alguém, e estava invadindo pra descobrir sobre o verdadeiro paradeiro do quadro roubado que estava escondido na galeria do corredor proibido? Lem percebeu que estava começando a imaginar coisas demais. Ela apenas suspirou, lembrando-se de respirar finalmente e já estava dando meia volta pra ir pro pátio esperar Lilly quando notou que o garoto havia deixado a porta aberta. Porque não? Lem se animou e o seguiu por dentro da escola também. Ele passou por algum tipo de depósito de materiais de jardinagem velhos e enferrujados e saiu no jardim da arvore morta. Lem sorriu pra si mesma por estar certa. Ele havia passado por ali. Ela sabia onde ele havia ido. Se adiantou e correu um pouquinho dando a volta na árvore e pulando por cima da fita que dizia «entrada proibida». Ela começou a caminhar devagar, tentando não fazer barulho algum. Então parou em frente a uma das portas. A porta da galeria. ainda estava com uma fresta aberta, assim como no outro dia. Ela abriu um pouco mais apenas para espiar, então após constatar que era seguro, entrou. Aquele lugar poderia parecer normal pra qualquer outra pessoa, mas pra ela era perfeito. Havia toda uma aura de quietude e calma que fazia parecer que o lado de fora daquela sala era um mundo à parte, e a convidativa biblioteca fazia Lem querer ficar naquele mundo. Era menor que a de sua avó, mas parecia ter coisas muitas diferentes. Coisas que eram mais de sua preferência. Alguns livros pareciam primeiras edições ou até manuscritos. No fundo da sala, ao lado da grande estante e escondida atrás de um pilar com um vaso que supostamente era uma obra de arte, havia outra porta, também aberta. Aparentemente o menino passara por ali. Lem se aproximou para espiar o que havia ali dentro, e teve outra surpresa. O garoto estava ali parado no meio de uma sala escura iluminada por velas que deixavam o local com uma trêmula tonalidade vermelha. Ele estava de frente para um livro aberto no chão. Lem notou que esse livro era o único objeto na sala além das velas nos castiçais dos dois lados do quarto. O garoto estava de costas olhando para o livro.

- Será real? Quando o anjo inocente conhecer a verdadeira face do demônio, lágrimas serão derramadas de ambos os rostos. Só então, o sonho provará àqueles que o contemplam, que se tornou realidade...

-Do que ele está falando? E com quem? Eu o achei estranho à primeira vista, mas isso é demais...Até pra mim. -

Lem não sabia do que ele estava falando, ela queria saber do que se tratava mas não tinha coragem de perguntar à ele. Tão pouco de sequer se mexer. Ela o observava silenciosamente, sem nem respirar. Podia sentir uma gotinha de suor escorrendo de seu rosto mas decidiu ignorar. Queria se manter focada no garoto e esperar por qualquer ação que ele pudesse fazer. Ele se abaixou sobre um joelho e pegou o livro do chão, devagar. Então se levantou e começou a passar pelas folhas, como se estivesse conferindo algo. De repente um barulho estridente e muito alto fez Lem pular de susto e deixar escapar um gritinho. O sinal da escola ficava na parede próxima àquela sala. Lem sentia o coração bater forte como um tambor no peito e passava mentalmente alguns xingamentos quando se lembrou do menino na outra sala. Ele a observava com um olhar que era misto de surpresa e diversão. Ele virou-se para ela, mas Lem não pensou em mais nada, apenas se virou sobre o calcanhar e começou a correr na direção oposta, esbarrando num dos pilares e quase deixando cair um tipo de estátua meio disforme que parecia um busto de uma pessoa. Ela ajeitou o item novamente no lugar e voltou a correr sem olhar pra trás. Já estava perto da porta de entrada quando ela se abriu e os alunos começaram a entrar. Lem ficou ali parada, enquanto as pessoas passavam por ela, às vezes esbarrando em seu ombro, às vezes cochichando alguma coisa quando reparavam sua expressão atônita. Duo percebeu a amiga ali e foi falar com ela.

- Oi Lem. Chegou cedo hoje... – cumprimentou Duo, se interrompendo quando percebeu a expressão da amiga.

- Oi... Ah... Eu não passei na casa da vó... - Ela tentou mudar logo de assunto pra não ter que se explicar. Ela virou e começou a andar na direção dos outros alunos pra ir pra sua sala. Ela não percebeu, mas estava suando bastante. Duo percebeu.

- Você tá bem? Ta parecendo meio... sei lá, assustada. Viu algum fantasma, ou esqueceu algo importante? – perguntou Duo.

- Não exatamente... mas...

Lem apoiou o queixo em seu dedo indicador e se perdeu em pensamentos. Duo ficou observando a garota por alguns segundos até perceber que nada seria dito. Ele deu de ombros e só foi andando junto dela.

- Aliás, obrigado por trazer o que eu pedi ontem Lem.

A garota saiu de seus pensamentos e olhou pra ele sem saber do que estava falando. Demorou uns segundos pra ela entender e voltar pro presente.

- Ah. Eu havia prometido te dar aquilo. Não é muito minha praia, e estava só jogado lá pelo meu quarto mesmo... Mesmo assim fez uma tremenda bagunça pra conseguir pegar de novo. Quero que você vá lá em casa arrumar tudo pra mim.

- Há Há. Eu iria se isso fosse verdade. Eu já vi seu quarto, ele é mais bagunçado que o meu. Não me culpe por isso.

- Qual é, eu achei que poderia ganhar uma faxina de graça.

- Ninguém arrumaria o seu quarto de graça, Lem.

Os dois continuam andando lado a lado até chegarem na sala de aula. Lilly já estava em seu lugar, sua mochila estava jogada e aberta sobre a mesa e ela estava quase deitada na cadeira com os pés jogados em cima de sua mochila. Ela estava brincando com a adaga, balançando ela pelos dedos e jogando pra cima, tentando pegar pelo cabo. Lem já havia notado que ela tinha certa habilidade com o instrumento. Quando Lilly notou os dois fez um sinal com a mão pra que viessem se sentar com ela.

- Olá minhas pessoas preferidas dessa escola. Quem arrisca colocar a mão aqui pra eu tentar não acertar com a adaga?

Lem pôs a mão bem aberta na mesa e encarou a amiga com olhar desafiador. Lilly abriu um sorriso perturbadoramente feliz. Duo tentou impedir que ela fizesse alguma coisa quando ela disparou com a ponta da adaga na direção da mão de Lem, mas no meio do caminho ela mesma parou e rapidamente guardou o objeto na mochila, ao mesmo tempo em que se endireitou na cadeira. Os dois acharam estranho, mas ela estava com uma expressão quase assustada, enquanto olhava pra algum ponto atrás da cabeça dos dois. Lem suspirou e Duo deu um pequeno pulo de susto quando sentiram as mãos do diretor da escola pousar sobre seus ombros, enquanto o garoto ogro do dia anterior vinha logo atrás apontando na direção do trio e rindo para os colegas. Dava pra entender a reação de Lilly agora.

- Creio que os três aqui devam me acompanhar até a minha sala. – o homem velho, porém bem magro tinha um nariz adunco, um bigode penteado por baixo e um parzinho de óculos redondos pequenos que escondia seus olhos menores ainda. O pouco cabelo que tinha na cabeça estava bem penteado e seu suéter de lã bege por cima da camisa lhe dava uma impressão nada intimidadora. Era, no entanto, um pouco irritante de se olhar depois de um tempo. Lem percebeu isso bem rápido pois sua aparência engomadinha lhe dava a impressão que ele ia começar a fazer os mesmos discursos de seu pai.

As outras crianças estavam todas paradas olhando pra eles. Era algo estranho para os três, eles nunca chamaram a atenção de ninguém, nem dos professores. Ser chamado para uma conversa particular era no mínimo incomum. Lem podia conversinhas pelos cantos e começou a ficar com raiva. Duo parecia bem nervoso, ele saiu acompanhado do diretor, com a cabeça baixa. Quando passou pelo grupinho dos meninos, eles ficaram rindo baixo, fazendo alguma piadinha. Lilly ficou pra trás arrumando sua mochila e Lem ficou pra fazer companhia. Logo o diretor colocou a cabeça pra dentro da sala e pediu que Lem e Lilly viessem também. Lem ficou mais irritada. Seu dia que não havia começado muito bem, agora estava piorando. Realmente aquela adaga tinha causado vários problemas. As duas seguiram um pouco atrás de Duo, que caminhava cabisbaixo um pouco atrás do diretor, que se mantinha altivo e com o grande nariz adunco empinado pra cima. Eles subiram a escadaria pro segundo andar e foram caminhando em silêncio até o final do corredor direito do piso superior da mansão. O homem parou ao lado da porta, a empurrou pra dentro e fez um sinal com a mão para que entrassem. Duo entrou imediatamente. Lem parou e pensou um instante.

-Ora, que motivos eu teria pra recusar minha primeira visita a sala do diretor? A não ser o meu humor que não parece estar a fim de receber visitas hoje. -

Quando as duas entraram na sala grande iluminada e arejada do diretor, ele as mandou sentar uma em cada uma das cadeiras que estavam encostadas na parede da sala, frente à grande mesa de madeira escura cheia de papéis bem organizados do diretor. Lem ficou ao lado de Duo. Lilly sentou-se no outro canto, entre a amiga e um armário de arquivos.

- Bom, imagino que saibam por que estão aqui.

-Não sei. Acho que nos chamou porque quer me dar parabéns por ter lindos olhos. Não faça joguinhos cretinos, seu cretino. - Lem realmente queria dizer isso, mas se contentou em um suspiro.

- Não... – disse Lilly em voz baixa.

- Hoje fiquei sabendo através de um aluno, que vocês trouxeram um objeto que devia ser proibido nessa escola. Já sabem do quê se trata?

- Sabia que devia ter deixado minha opinião própria em casa... – disse Lilly, que tinha percebido que ele falava do punhal e estava começando a ficar com raiva.

- Haham... – O homem pigarreou alto e ajeitou a gola da camisa por baixo do suéter. – Piadinhas não vão te ajudar, senhorita... – ele tirou um bloquinho de anotações de dentro do bolso e ajustou os óculos para ler – Lilly... Parece que nenhum de vocês tem algum histórico de mal comportamento. Então creio que não iriam se opor à minha decisão de mandar revistar seus pertences. – disse o diretor por trás de seus óculos pequenos e redondos.

- Isso seria... Injusto... – disse Lilly que sabia que seria a culpada por estar em posse do objeto. – um homem não pode bisbilhotar os pertences pessoais de uma “dama”. – Lem e Duo olharam pra ela. Nem ela mesma acreditava naquilo. Muito menos na parte sobre “dama”.

- Você mesma pode me mostrar o que tem aí com você. Estamos sozinhos aqui na sala e eu sei que se você não fez nada de errado, não tem porque se opor. – o homem parecia estar caindo na conversa dela. Ele parecia tão desconfortável com a situação quanto eles.

- Pois eu não pretendo me sujeitar à isso. Que o Duo o faça.

Lilly abanou a mão na direção do amigo, depois cruzou os braços e se virou pro lado, como se tivesse acabado com a discussão. O diretor suspirou e fez um sinal pra que Duo começasse a mostrar suas coisas. Duo olhou bravo pra Lilly pelo canto dos olhos mas começou a por seus pertences pra fora da mochila. Primeiro tirou alguns livros e cadernos, depois um estojo meio surrado e sujo, depois pegou algo de dentro da mochila mas antes de tirar pra fora ele parou e hesitou. Levantou a cabeça e viu que todos estavam encarando. Até Lem havia ficado interessada. Ele suspirou, abaixou a cabeça e tirou uma pedra. Apenas uma pedra comum. E colocou ela no chão, perto dos livros. Depois encarou mais um pouco e por fim, tirou um sapinho de pelúcia. Todos continuaram encarando ele em silêncio.

- O-o sapo é minha carteira. E é só isso que eu tenho aqui. – ele começou a guardar tudo de volta rapidamente, ainda com a cabeça abaixada. Ele não explicou o porquê da pedra.

- Bom, agora você, senhorita...

- Meu nome é Lem. E se quer tanto saber, olhe. – Lem abriu sua mochila e virou o conteúdo todo no chão. Caíram seus livros de escola, cadernos, alguns lápis e canetas junto com algumas balinhas coloridas e barrinhas de chocolate. E muita embalagem vazia de doces. E muita apara de lápis apontado. Lem virou a mochila, olhou dentro dela e começou a pegar mais um pouco de sujeira e embalagens de doces e jogar no chão, sujando bastante da sala do diretor. Depois abriu outros compartimentos da mochila e começou a jogar mais alguns doces, balas, pacotinhos de bolachas, embalagens vazias de mini-bolos e sorvetes, palitinhos de pirulitos... até que o diretor, com medo de sujar todo seu escritório, suspirou e decidiu impedi-la.

- Tudo bem. Chega, chega. já olhei e acho que não tem nada... “realmente” errado em seus pertences... – ele parecia estar lutando pra achar as palavras certas. – P-por favor, apenas recolha tudo isso, sim?

Lem deu de ombros e guardou de volta os doces e cadernos. As embalagens vazias e sujeira ela fez questão de deixar no chão. O diretor percebeu que ela fez isso mas decidiu que preferia que eles só saíssem logo dali o mais rápido possível.

- Você agora, senhorita Lilly. – Seu tom de voz estava começando a se alterar, demonstrando irritação.

- Minha vez de sujar seu chão? Ok... – Lilly começou a puxar algo lá de dentro do pulmão pra cuspir no chão, mas foi interrompida.

- NÃO! – todos pararam e olharam o diretor. Lilly engoliu algo com esforço fazendo um barulho alto. – por favor, apenas me mostre seus pertences e podem ir...

Lilly deu de ombros e decidiu começar a tirar suas coisas também. Ela jogou os cadernos e livros em péssimo estado pra fora da mochila sem cuidado nenhum, e depois foi pegando coisa por coisa com um cuidado exagerado. Um par de brincos velhos e meio enferrujados grudados num pedaço de cartolina, um manual sobre armas de fogo do tipo que não se consegue em qualquer lojinha, um tipo de canivete com cortador de unha, colher, abridor de lata e lente, um folheto meio amassado de uma loja de penhores... e um livro de romance meio brega. Lem levantou a sobrancelha e encarou a amiga que deu de ombros. Duo pensou em comentar que gostava daquela história, mas apenas ficou quieto. O diretor estava pronto pra admitir que tudo havia sido um engano e pedir pra que fossem embora de volta pra suas salas quando algo dentro da mochila de Lilly fez um barulho metálico. Eles olharam pra ela.

- O que mais tem aí? - O diretor fez um sinal com a mão pra continuar tirando o que tinha na mochila.

- É só um brinquedo... – Lilly segurou a mochila para si e virou o olhar.

- Me mostre, senhorita. – Ele chegou mais perto dela, ainda fazendo o sinal com a mão.

- Não é justo! – Lilly exclamou em protesto.

-Isso parece um interrogatório policial. Agora só falta arranjarem provas contra nós. – Pensou Lem.

O diretor pegou a mochila e após mexer dentro dela, retirou o punhal em mãos, e balançou na frente do rosto. Lem riu consigo mesma.

- Seria injusto achar isso nas suas coisas? Isso é proibido aqui em nossas instalações, senhorita... senhorita... Lílian, e você sabe disso. Você sabia disso, senhorita... Lin?

-Patético. Ele tem sido o diretor daqui há um bom tempo e não consegue nem decorar um nome que acabou de ouvir. – Lem dizia pra si mesma.

- Olha, fui eu tá? - disse Duo, olhando diretamente nos olhos do diretor enquanto Lilly o observava surpresa. - Eu trouxe o punhal, mas só queria mostrar pra elas... Lilly sabia que era errado e o tomou de mim, ela ia dizer aos meus pais que eu o trouxe... Ela não quis me envolver em problemas, então não contou aos professores...

- Hmm, infelizmente eu já sei quem trouxe esse punhal. – interrompeu o diretor – foi essa aluna, a senhorita Lin.

Lem não sabia bem como agir. Mas lembrou do menino ogro rindo e dos nomes anotados num bloquinho pelo diretor. Ele devia ter dedurado os três. Se saíssem logo dali, poderia dizer a eles que sabia de quem era a culpa. Ela decidiu dizer a primeira coisa que lhe veio à cabeça.

- Meu nome é Lem, e não Lin. – eles fizeram silêncio por um instante, mas Lilly estava segurando o riso.

- O senhor vai nos culpar de qualquer forma, então qual é o nosso castigo? – Lem perguntou ao diretor olhando diretamente nos seus óculos.

- Que bom que entende. Vou lhes dar sim, um castigo. Uma de nossas salas sofreu um pequeno acidente hoje de manhã. Quero que vocês fiquem depois da aula e a limpem. E é claro que a arma será confiscada. Nossa política diz claramente que armas de nenhum tipo e espécie serão toleradas dentro de nossas instalações, e...

- Ok... – disseram os três, interrompendo o vindouro discurso.

Na volta pra sala Lem explicou-lhes sobre o menino ogro. Pelo menos eles já sabiam quem levaria uma surra de Lilly depois por ela perder seu recém-adquirido punhal.

Depois da aula a professora pediu aos três que a esperassem. Ela os levaria para a sala que iriam limpar.

Eles passaram pelas fitas do corredor proibido e seguiram pelo corredor adentro, passando por algumas portas até que a professora parou em frente à porta da sala em questão. Porta que estava cheia de arranhões e cortes, como se tivesse sido atacada. Lem imediatamente a reconheceu como a sala da galeria, mas a porta não tinha esses arranhões quando ela a deixou naquela mesma manhã. Será que aquele menino estranho havia feito aquilo?

- Essa sala é uma biblioteca e depósito de alguns itens do antigo dono da mansão. Parece que algum animalzinho entrou aqui e fez um estrago nela. Tem bastante coisa roída e rasgada ali. Vocês devem identificar os livros que ainda estiverem em bom estado e recolocá-los na estante. E também vão limpar tudo, tirar o pó, lustrar as obras de arte e varrer o chão. Já deixei os materiais de limpeza aí dentro. Podem começar e só saiam quando acabar. E me avisem quando forem embora.

A professora saiu e deixou a porta aberta. Quem quer que fosse o tal antigo dono dali, tinha um gosto refinado. As obras de arte, estátuas pilares e vasos pareciam ter um valor considerável. Muitos deles estavam caídos no chão, quebrados. Provavelmente além de qualquer reparo. Deve ter dado um belo prejuízo. Eles provavelmente não vão mais enfeitar as estantes, como faziam antes do lugar ser atacado.

-Aquele menino deve ser burro. Com certeza ele deixou a porta aberta e algum esquilo retardado entrou aqui e fez essa zona. Estou começando a desgostar dele. Se ele não tivesse feito isso, eu não teria que agüentar esse castigo idiota. Talvez só estivesse varrendo a sala de aula, ou algo assim... O que na verdade seria tão idiota quanto. –

Eles começaram a organizar tirando as coisas do chão e separando entre inteiros e quebrados. Lilly estava mexendo numa mesinha de vidro que havia caído de frente no chão e derrubado os itens, vidro e algumas almofadinhas pela sala. Duo estava varrendo os cacos de vidro ao lado dela. Um objeto que estava por baixo da mesinha chamou a atenção dos dois imediatamente. Lilly a pegou imediatamente.

- Olhem isso! É a adaga que você me deu. Ou pelo menos, uma muito parecida. – falou Lilly erguendo o objeto para que os dois amigos vissem.

- Não é a mesma. Essa parece mais velha. Mas é muito parecida... Será que faziam parte de uma coleção? – disse Lem.

- Haha, o diretor pode ficar com aquela pra ele por enquanto. Essa aqui agora é minha. – Lilly começou a polir a lâmina com a parte de baixo da camisa.

- Mas porque você quer esse tipo de coisa?

Duo perguntou mas a menina nem lhe respondeu. Ele já esperava isso, então apenas rolou os olhos e nem ligou. Eles continuaram a limpar, e enquanto Duo e Lilly discutiam sobre quais seriam as possíveis circunstâncias onde carregar uma pedra na mochila poderia ser útil, Lem se viu observando os livros e imaginando se estaria tudo bem se ela pegasse um emprestado de vez em quando sem ninguém saber. Ela devolveria depois, é claro, mas não parecia que ela poderia pedir permissão pra usar aquela biblioteca. As chances eram menores agora, que estava de castigo e provavelmente fora marcada pelo diretor. Estavam tão distraídos que se assustaram ao ouvir um barulho muito alto na porta. O barulho dela fechando.

- Ei! – Lilly correu até a porta, tentou girar a maçaneta, mas parecia ser do tipo que trancava ao fechar. – Abra a porta! Ainda estamos aqui dentro... – Lilly gritava e batia na porta com o punho.

- Ora, eu consegui um tempo a sós pra você e esse seu namorado que não fala... Você devia me agradecer, não? – era a voz do menino ogro. Ele falava e parecia se virar pra rir junto do resto de seu grupo. Lilly estava ficando vermelha de raiva, e começou a socar a porta com mais força.

- Eu VOU sair daqui e vou pegar você meninão, há há há, eu vou sim. E vou fazer sua cara feia virar do avesso pra que até a sua mãe ogra não seja capaz de reconhecer você. – Lilly continuou criando ofensas ainda piores enquanto esmurrava a porta, mas mesmo fazendo bastante barulho, a mansão da escola era bem grande e ali não era exatamente uma área comum. Ninguém ouviria.

- Ei, eu não sei se você sabe, mas eu to presa aqui também. – Lem empurrou Lilly pra trás e falou bem próximo à porta, pra que aqueles garotos ouvissem. - Acho que eu não tenho nada a ver com essa historia. Me deixa sair? - Eles pararam de rir por um momento, cochicharam algo e logo Lem ouviu um barulho na maçaneta. Por um momento, ela achou que ele abriria a porta.

- Eu nem sei quem é você menina, mas eu vejo você junto deles. – O garoto girou a maçaneta algumas vezes e puxou pra dentro com mais força, só pra garantir que estava bem trancada – Então, dá no mesmo pra mim. Você fica junto deles.

Ele se virou pra rir com os outros mas os meninos não o acompanharam. Parecia que não queriam se meter nos problemas que o suposto “líder” deles estava causando. Afinal prender um menino no banheiro feminino de vez em quando não era nada de mais, mas um prender três crianças numa sala que era proibida para os alunos parecia de alguma forma bem pior.

- Ahh, podem deixar que eu aviso à professora que vocês acabaram a faxina e quiseram ir embora sem falar nada. Afinal, ela sabe que vocês são quietos, há há há há... – os três ouviam a voz dele diminuir enquanto ficava mais distante. Até sumir e ficar um silêncio total. Já devia ter passado das dezoito horas, o dia estava acabando e devia estar anoitecendo. Lem percebeu que não tinha nenhuma janela ali naquela sala. A pouca luz vinha de um lustre meio quebrado que balançava um pouco no teto graças às pancadas na porta. Parecia que o plano do menino ogro para se vingar deles havia dado certo. E até Lem havia sido pega nessa.

- Ótimo... Vamos ficar presos aqui até amanhã. – bufou Lilly escorregando pro chão numa mistura de raiva e desânimo.

- Ou até mais... Quem garante que virão pra essa sala amanhã... – disse Duo que de certa forma, estava acostumado com a situação. Ele olhou de relance para Lilly apenas pra receber um olhar perfurante de quem não estava ajudando.

- Acho que aquele menino talvez venha... – lembrou-se Lem – Mas se ele me ver aqui vai se lembrar que eu o segui hoje pela manhã... Talvez fique bravo. – ela colocou o dedo indicado no queixo e se perdeu em pensamentos. Os dois amigos ficaram olhando pra ela sem entender do que ela estava falando. Lilly sabia que a amiga costumava se perder em seu próprio mundo e nem sempre ela atualizava os outros sobre o que estava se passando.

- Lem. Você seguiu alguém? Aqui na escola? Como é que é isso? – Lem percebeu que não tinha falado sobre aquilo pra ninguém e se virou para os dois com um olhar de “ops”. Os dois suspiraram enquanto Lem arrumava um espacinho entre um armarinho caído pra se sentar e começar a contar a história. Ela foi se sentar perto de Lilly e fez sinal pra Duo vir também, mas ele estava meio distraído olhando pra alguma coisa no chão. Lilly o chamou mais uma vez e num salto o garoto se distraiu do que estava olhando e foi pra perto das duas, arrumando um lugarzinho pra se sentar entre as amigas.

- Hoje de manhã eu estava lá na encosta, olhando as flores... – Lem se inclinou um pouco à frente e começou a contar a história.

- Ah, aquele lugar que você vai pra perder tempo, né? – Lilly interrompeu com um sorrisinho maldoso.

- Eu gosto daquilo, tá bom? Não me julgue. – Lem franziu o cenho e fez cara de brava - E o Duo gosta de sorvete de caramelo...

- Qual o problema disso? – O garoto levantou a sobrancelha e olhou pra cada uma delas procurando uma resposta.

- Pois é, né? A gente foi tomar sorvete há um tempo e ele escolheu o de caramelo... eu fiquei com vergonha da moça do caixa ver a gente comprando sorvete de caramelo... – Lilly dizia enquanto se afastava devagar de Duo com um olhar que o examinava de cima à baixo.

- Mas por quê? O que o caramelo tem de tão ruim? – Duo levantou os ombros e mudava o olhar de uma pra outra, sem entender nada.

- Ok, Lem, tá perdoada. – Lilly pôs a mão no ombro da amiga – Agora continua.

- Ei... – Duo pensou em tentar continuar a discussão mas decidiu deixar pra lá e continuar ouvindo a história.

- Quando eu estava lá, eu vi alguém passando por ali. E ninguém nunca faz aquele caminho, então eu dei uma espiada pra saber quem era... e... – Lem olhou pro quadro do menino na parede. Não havia data na pintura, mas Lem não tinha dúvidas de que era a mesma pessoa. Ela quase podia sentir. Duo e Lilly esperaram que ela dissesse algo, mas ela apenas ficou com o olhar perdido por algum tempo. Os dois seguiram o olhar dela e perceberam o quadro na parede.

- Aquele menino ali? Ele saiu da pintura e foi até a encosta? – Lilly encostou o indicador no queixo e pareceu realmente acreditar em sua hipótese.

- Eu não disse isso... – Lem voltou a atenção para Lilly.

- Quando foi que isso virou história de fantasmas? – Lilly cruzou os braços e fez uma expressão séria – Não esquece que estamos presos aqui dentro dessa sala sinistra com o mesmo quadro sinistro do menino que você disse que viu andando por aí... – ela fazia uma voz sinistra.

- Eu bem que achei que a Lem tinha visto um fantasma hoje de manhã. Ela estava com uma expressão assustada. – Duo comentou mais pra si mesmo, enquanto tentava lembrar do que aconteceu de manhã.

- Viu? Tudo se encaixa. – Lilly bateu com o punho fechado na palma da outra mão, como se sua hipótese tivesse acabado de ser confirmada e não houvesse dúvidas disso – E agora? Será que quando der meia noite ele vai sair do quadro pra roubar nossas almas e levar pro além? – os três se aquietaram por alguns segundos e ficaram olhando o quadro. O silêncio total da sala causou um leve arrepio nos três.

- Posso continuar a história? – Lem olhou para os dois interrompendo o silêncio.

- Duvido que ela vai ser melhor do que a minha... – Lilly deu de ombros e encostou-se à parede, com ar de vencedora.

- Acho que a Lem conta histórias melhor do que você, Lilly... – Duo falou sem se virar, mantendo a atenção em algum lugar um pouco longe delas.

- Ah, mas isso é mentira! – Lilly bateu um pé no chão e insistiu - Eu tenho meu jeito particular de ver e descrever os fatos. Até a sua rotina seria bem mais legal se fosse narrada por mim. – ela falou e apontou para Duo.

- Eu... meio que gosto da minha rotina... – Duo fechou os olhos e respondeu calmamente – Gosto de calma... se você narrasse colocaria extraterrestres ou dragões no meio...

- Cara... – Lilly aproximou o rosto de Duo e fez cara de séria - TUDO. FICA. MELHOR. COM DRAGÕES.

- Minha história não tem dragões, mas eu queria continuar... – Lem abanou a mão e os dois se encostaram novamente pra ouvir.

- Vá em frente. Eu te digo quando por dragões nela. – Lilly falou interrompendo uma última vez.

- Bom... o fato é que... quando eu vi ele, logo me lembrei de ter visto o rosto dele ontem nessa pintura. – Lem voltou o olhar para o quadro mais uma vez – Mas ele estava mais velho, e tinha cabelos brancos...

- Cabelos brancos? – Lilly falou bem alto – Então como você pode ter certeza que é ele se ele já está velho? Pode ser só um cara parecido, ou um parente, sei lá...

- Mas ele não está velho. Bom, ele está mais velho do que na pintura, mas não está realmente velho, entende? – Lem tentava balançando os dedos na frente de seu rosto – Deve ter uns dezoito ou dezenove anos...

- Acho que ele não envelheceu bem, né? Cabelo branco com 19 anos? O que vem depois, dentadura com 20? – Lilly olhava o quadro e tentava imaginar o garoto como um velho.

- Não é isso. Acho que ele pintou os cabelos... – Lem mantinha o olhar perdido, tentando lembrar-se do momento.

- Um cara que pinta os cabelos de branco? – Duo perguntou meio que pra si mesmo, tentando lembrar se conhecia alguém assim.

- Sujeito esquisito esse branquinho, hein... – Lilly ainda olhava a pintura dele na parede. Algo sobre aquela pintura era meio hipnotizante.

- Quem somos nós pra julgar? – Duo deu de ombros.

- Ele estava vindo aqui pra escola, aí me deixou intrigada. Ele não é aluno daqui, ou eu acho que já teria notado. – ela foi diminuindo a voz gradativamente enquanto contava – E eu tinha que vir pra cá de qualquer forma, então... Eu vim atrás dele... – Lem corou um pouco por dizer que estava seguindo um garoto.

- Você seguiu o cara? – Duo arregalou os olhos pra ela.

- Não esperava isso de você. Parabéns, Lem. – Lilly deu uns tapinhas nas costas da amiga e abriu um largo sorriso de zombaria – To orgulhosa.

- Não enche. – Lem rolou os olhos.

- Ele veio mesmo pra escola então? – Duo abanou a mão, fazendo gesto pra ela continuar.

- Sim, mas ele entrou por uma porta no fundo do terreno. Ele tinha a chave e tudo. E eu vim atrás dele. Ele veio aqui pra essa sala, e... – ela se lembrou subitamente da porta escondida atrás da estante de livros que o garoto tinha entrado. Ela olhou para o lugar onde deveria estar a tal porta, mas a estante havia virado para o lado e estava barrando exatamente onde ela deveria estar. Lem se levantou e foi até perto da estante pra examinar melhor. Duo e Lilly trocaram um olhar de dúvida quanto ao que a amiga estava fazendo, e Lilly girou o dedo na têmpora. Lem ficou na ponta dos pés e conseguiu ver um pedaço da porta por detrás da estante. Ela tentou empurrar, mas era muito pesada, e não se moveu. Então ela voltou até onde estavam os dois amigos.

- Eu tive uma ideia... – Lem tentou começar a falar.

- Tudo bem, nós entendemos você. – Lilly falou bem devagar e fazendo gestos com as mãos – somos amigos, tá? Agora senta aqui e fica quietinha que eu e o Duo vamos tentar achar uma saída, ok? – Lilly falava pausadamente e teatralmente com a amiga, fazendo parecer que falava com alguém louco. Lem rolou os olhos e bufou.

- Cala a boca e me ajuda a mover aquela estante. – Ela pegou Lilly pela camisa e a pôs de pé.

- Por quê? – Lilly protestava.

- Tem uma porta atrás dela. – Lem parecia subitamente animada.

- Uma porta? – Duo se levantou e foi pra junto das duas, interessado.

- É, é onde o garoto foi quando entrou aqui. - Lem ficou de novo na ponta dos pés, espiando a porta escondida.

Ela tentou puxar a estante e fez sinal para os dois acompanharem. Os três juntos começaram a mover o grande obstáculo. Aos poucos ela foi se mexendo até que a estante começou a arranhar o chão e fazer um barulho muito alto. Faltava pouco pra liberar o caminho pra porta, então eles só continuaram empurrando, mas subitamente a estante pareceu leve demais. Parte dela havia ficado sobre um objeto que estava no chão que parecia uma taça de metal, e quando eles olharam ali perceberam que estavam usando a taça de escora pra fazer um dos pés da estante subir numa das pilastras caídas. A estante balançou perigosamente na direção deles e todos notaram isso e soltaram-na juntos. O grande objeto voltou pra trás e eles soltaram um suspiro de alívio quando ela parou de balançar. Lilly deu um sorrisinho e foi pra perto da estante.

- Que sufoco hein? Eu pensei mesmo que essa coisa ia dar mais trabalho... Mas ela não é páreo pra nós três. – Lilly deu um soquinho com os dedos em nó no lado da estante. Isso a fez desequilibrar e atirar a taça que estava em baixo dela até a parede do outro lado da sala, fazendo Lem e Duo se abaixarem e cobrirem as cabeças no susto. A taça rebateu na parede e acertou o lustre, acabando com a pouca luz que eles tinham. Logo em seguida, eles ouviram o barulho da estante balançando perigosamente. Lem só teve tempo de perceber Lilly agarrando ela pelo ombro e se jogando pro mais longe possível antes do barulho ensurdecedor da estante caindo no chão, esmagando e quebrando a pilha dos objetos que estavam intactos e espalhando todos os livros pelo chão. Os três ficaram em total silêncio por alguns segundos.

- L-Lem... – Lilly falou com a voz meio quebrada.

- Oi? – Lem respondeu lembrando-se de respirar.

- Acho que o conhecimento tá tentando me matar. – Lilly parecia estar bastante ofegante.

- Eu acho que você é que ta tentando matar a gente. – Duo que fora pego por Lilly ao mesmo tempo que Lem de alguma forma tinha ido parar em baixo das duas. Quando elas perceberam se levantaram rápido pra deixar o amigo se recompor.

- Todo mundo bem? - Duo perguntou assim que conseguiu se levantar.

- Eu acho que fiz um arranhão na perna. Mas não é nada de mais. – Lem disse esfregando a mão no joelho, e sentindo certa dor no ato.

- Eu... to legal. Acho... Desculpa pessoal, foi culpa minha... – Lilly começou a falar mas foi interrompida por Duo.

- Acho que você já leu esse não é? Você me falou dele uma vez. – Duo pegou um livro do chão e balançou mostrando pra Lem. Ele levantou a capa na direção dela, que confirmou com a cabeça. – eu senti algo acertando meu rosto quando caímos e era esse livro. Eu fui tentar tirar mas aí vocês duas caíram em cima de mim. E depois uma coisa bem dura acertou minha testa... – Duo estava com os dedos na cabeça, no lugar que havia sido acertado. – Tá sangrando um pouco, mas acho que não foi sério. Sorte que não machucou muito porque acertou o livro primeiro, mas era algo bem pesado... – ele olhou um pouco em volta e achou o objeto que o acertara caído. O mesmo por qual se interessara antes. Ele pensou em ir pegá-lo, mas Lilly entrou em sua frente, tentando ver o ferimento.

- Você tá machucado? Sinto muito por ter sido descuidada. Eu cuido disso pra você, ta? Quando a gente sair daqui eu tenho uns adesivos lá na mochila. Eu tava guardando pra usar em algo importante, mas isso com certeza é importante... – Lilly parecia bem preocupada, o que deixava Duo claramente sem jeito. Lem pegou um livro do chão e lembrou-se dele. Já havia lido esse antes na casa da avó. Só agora percebeu que desde que começou a fazer isso, já tinha lido muitos livros. Então olhou pra porta que estava escondida atrás da estante e a notou totalmente desobstruída. Lembrou-se que havia um livro dentro daquela salinha escondida e vazia. Era esse que ela queria. Ela foi até a porta e virou a maçaneta. Pra sua surpresa estava mesmo aberta. Ela olhou para os dois e o interesse deles no que havia lá aumentou repentinamente. Ela abriu a porta devagar, enquanto Lilly e Duo chegavam mais perto pra espiar. Ela abriu até dar pra ver a sala toda. A aparência avermelhada que as velas acesas dava às paredes dela era bastante ameaçadora. Um pouco mais agora depois do que eles já tinham passado. De repente a história do menino fantasma saindo do quadro começou a parecer assustadora. Mas fora os castiçais pendurados nas paredes, a única coisa ali ainda era o livro. Duo e Lilly pareciam bastante interessados agora. Talvez até acreditando em toda a historia de Lem. Eles entraram na sala, se aproximaram do livro e ficaram em volta dele pra ver o que havia ali. Estava aberto no chão como se alguém estivesse lendo ele e de repente o deixasse ali e fosse embora.

Lem se abaixou para tocar o livro quando alguém atrás deles exclamou:

- Não o toque! - Os três se viraram assustados para a origem da voz. E era o mesmo menino de cabelos brancos que Lem vira na sala pela manhã.

- É O F-FANTASMA! - Lilly gritou sem pensar duas vezes e Duo colocou a mão em sua boca. Eles trocaram um olhar assustado, mas Lilly ficou em silêncio. O menino parecia ter brotado do chão. Estava bem escuro ali, e mal dava pra ver o chão e as paredes. Mas dava pra saber que ele não veio da galeria quebrada, e não havia nenhuma outra porta ali dentro. Lem olhou em volta dele e percebeu um alçapão aberto. Havia mais um quarto em baixo daquele? Até onde isso ia, e quantas coisas escondidas haviam ali? O menino começou a caminhar devagar, fazendo Lilly dar um pulinho de susto. Ele se aproximou do livro e encarou Lem com um olhar frio, vazio. Que não demonstrava suas emoções.

-E agora? É ele de novo. E ele não parece estar de bom humor... Bom não que isso importe, eu não quase morri agora à toa. Eu posso enfrentar um menino fantasma... espera, por que até eu to chamando ele assim? -

- Você estava aqui essa manhã não é? – Ele falou quebrando o silêncio, com a voz suave e calma. Difícil de interpretar - Você me seguiu... Fico feliz que tenha voltado agora.

Lem ficou em dúvida quanto ao motivo daquele comentário.

- Voltado pra cá? Como assim...? Você estava me esperando aqui? – Ela perguntou com um olhar de quem realmente não entendia o que estava acontecendo.

- Quando a vi aqui essa manhã, tratei de reunir informações sobre você. – Ele pegou o livro do chão e colocou debaixo do braço, depois começou a caminhar em volta da sala devagar - Primeiro olhei os registros de alunos para saber seu nome e depois perguntei a alguns alunos se te conheciam. Felizmente logo soube que você não é muito querida entre os alunos mais velhos devido à companhia desses seus amigos estranhos. – Lem não gostou do comentário. Lilly também reagiu, mas não falou nada - Um garoto me disse que vira você... – Ele apontou pra Lilly que fechou a cara pra ele - ...Hoje de manhã portando um objeto que deveria ser proibido aqui na escola. Eu o aconselhei a delatá-la aos professores para ser castigada. Junto de seus amigos, é claro. ele só deveria dizer que não sabia quem era o dono do tal objeto. – Lem não sabia se acreditava nele, mas mesmo assim estava ficando com raiva – Eu arrumei a galeria de modo que achassem que ela foi invadida por algum animal. Assim seria óbvio que arrumar ela seria seu futuro castigo, e finalmente fui avisar os professores... – ele parou de andar, abriu o livro nas mãos e o fitou por uns segundos. Depois deu um pequeno sorriso e voltou-se para os três - É relativamente fácil se passar por um aluno nesse lugar, sabia? Os professores nem conhecem os próprios alunos... Patético... – depois do ultimo comentário ele balançou a cabeça teatralmente. Lem não entendia o que ele queria dizendo tudo aquilo, ou porque ele tinha planejado tudo aquilo, mas tinha que admitir que aquele garoto também se parecia com ela, de certa maneira. Afinal, esse ultimo comentário dele era exatamente o mesmo que ela já havia pensado, pouco antes.

- E porque queria que eu voltasse pra cá? Por acaso eu descobri algum segredo muito importante seu que não deveria saber, e agora vai tentar me calar? – perguntou Lem, com um tom sarcástico.

- Hahaha... Não é pra tanto. Essa mansão pertenceu a um ancestral meu. E quando fiquei sabendo dessa sala, interessei-me em vir até aqui. Mas... não queria que ninguém soubesse disso...

- Você espera que agente acredite que um cara quase da nossa idade é o dono dessa mansão? – Lilly o interrompeu, franzindo a sobrancelha.

- O fato é que eu sou. É algo que eu herdei da minha mãe. Mas concordo com seu espanto. Eu mesmo só fiquei sabendo dessa mansão há poucos dias... E logo que tentei vir aqui, percebi que fui seguido. – ele enviou um olhar acusatório pra Lem. Mesmo no escuro, seus olhos eram penetrantes e ela não conseguiu resistir e o desviou olhando para o outro lado - Embora tenha percebido tarde demais... e por isso senti a necessidade de saber quem foi. Quando fiquei sabendo quem era você, percebi que foi uma feliz coincidência, afinal.

- Você... Sabe quem eu sou? – perguntou Lem agora bastante confusa – E qual o seu nome?

O garoto parecia se divertir agora. Colocou a mão direita sobre a face como que para esconder um sorriso, então guardou o livro em um bolso de seu paletó, fechou o alçapão de onde viera, e saiu pela porta em direção à galeria destruída fazendo um sinal para que o seguissem. Lem foi logo atrás dele, Lilly e Duo vieram atrás, ainda quietos.

- Ora, ora. Ela está bem mais bagunçada do que quando eu a deixei...

Duo deu uma cutucada em Lilly. Lilly cutucou ele de volta. O garoto percebeu os dois fazendo isso e esboçou um pequeno sorriso. Ele deu uns passos e parou ao lado da estante caída. Abaixou-se e pegou um objeto, levantando-o na altura do rosto. Uma máscara kabuki feita de pedra. Aquelas usadas em teatros japoneses. Mas parecia bem pesada. Duo reconheceu como o mesmo objeto que lhe acertou na cabeça. O menino jogou o objeto por cima do ombro, caindo perto dos pés de Duo

- Meu nome é Shiree. – Ele disse finalmente virando-se para os três. Seu tom de voz e sua expressão fazia parecer que estaria sempre escondendo alguma coisa. – E só queria te conhecer. A você e seus amigos... – ele virou-se para os dois que estavam no outro canto da sala.

- Então oi... – Lilly respondeu casualmente. Lem e Duo a olharam e ela deu de ombros. Shiree riu baixinho

- Já estou me retirando. Podem ir também se quiserem, depois peço a alguém que arrume essa sala. Como já disse, sou o dono daqui. E por toda a confusão, deixarei que levem algum souvenir. Escolham qualquer coisa dessa sala que os tenha agradado, e levem como presente. Mas apenas um objeto para cada um de vocês, ok?

Dizendo isso, destrancou a porta e saiu antes que lhe perguntassem mais alguma coisa. Lem tentou alcançá-lo, ainda queria fazer várias perguntas, mas quando conseguiu desviar de todo o lixo e bagunça do chão e passou pela mesma porta que Shiree tinha acabado de passar, já não havia ninguém lá. Em nenhum lado dos corredores. Ele tinha sumido da mesma forma que havia aparecido. Talvez tivesse entrado em alguma outra sala, ou apenas caminhasse rápido o bastante para já ter virado o corredor proibido e chegado ao jardim com a árvore morta.

-Mais um ponto em comum comigo. Ele sabe ser furtivo. Embora ele seja melhor do que eu nisso... -

- Ele sumiu... Já me enchi desse lugar por hoje. Vou embora. Vocês vêm comigo? – Lem parecia cansada e confusa. Lilly e Duo se olharam e concordaram com Lem. Só depois que ele foi embora que Lem lembrou-se que tinha pensado que se o encontrasse de novo, queria perguntar sobre o que ele estava falando sozinho naquela sala de manhã. Mas depois de tudo que ele disse, ela só ficou com muitas questões a mais brotando na cabeça e decidiu que essa era uma das menos importantes. Ela já parecia mesmo cansada daquele dia. Mesmo não acreditando exatamente na historia de que Shiree era proprietário da mansão, ela pegou o livro que Duo tinha dito que ela já havia lido e guardou na mochila.

-Se ele é o dono daqui ou não, tanto faz, mas eu não acho que os professores sejam inteligentes o bastante pra saberem que isso tá faltando.

Duo não pegou nada, embora ainda estivesse encarando aquela máscara kabuki. Lilly pegou o punhal. Saíram então em direção à suas casas. Shiree observava o caminho feito por eles de longe, no sótão da mansão.

Enquanto cada um deles se despedia e depois iam cada um pra um lado, Shiree cobria a face com a palma da mão, escondendo de si mesmo o fato de estar se divertindo.

- Ótimo. As peças começaram a se mover. – ele sussurrou apenas pra si mesmo, deu um passo pra trás e foi embora. 

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