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Esqueceu a Senha?

Capítulos (1 de 3) 24 Aug, 2018

1 - A noite acima do sótão

-Eu... estou sonhando...? - Pensou Lem Specchio ao acordar com um feixe de luz do sol em seu rosto, deixando-a cega por alguns segundos. Ela se senta na cama, esfregando os olhos e se irritando consigo mesma por não ter se lembrado de fechar o teto solar na noite passada. - Acho que não. Nos meus sonhos não tenho que acordar de manhã - Seu quarto ficava estrategicamente no sótão da casa. Uma casa grande, com mais quartos do que ela se lembrava ou gostava de admitir que existiam. Seus pais nunca gostaram muito da ideia de seu quarto ficar lá em cima, e deixavam um outro quarto preparado para ela, próximo ao deles. Lem tinha 17 anos, e gostava de poder manter certa distância deles. E de quase todas as outras pessoas também. Ela era quieta, meio tímida, e gostava muito de ler. Normalmente as outras pessoas diziam que ela se achava muito superior à todos e isso era ruim. Mas a verdade é que Lem só fazia as coisas em seu próprio tempo. Ela deu uma olhada no relógio e se levantou finalmente com um grande e longo bocejo. Teve que abrir caminho entre livros, caixas e roupas até o espelho na parede. Como meio de desencorajar Lem a fazer o sótão de quarto, seus pais mantinham as caixas com coisas velhas e alguns móveis antigos ali. Aquilo poderia até incomodar, se ela própria não tivesse sua cota de bagunça espalhada pelo quarto. No fim das contas não fazia muita diferença. O espelho mostrava a ela a mesma pessoa do dia anterior, apenas com cabelos mais bagunçados e uma expressão de zumbi. - Bom dia, novo dia entediante. Nessa cidade chata. Desculpa reflexo... mal humor matinal - Mesmo com cabelos curtos, Lem achava muito difícil penteá-los. Ela passava a escova várias vezes e ele não parecia mudar de forma. Apenas aumentava o número de fios dourados enrolados por entre os dentes da escova de pentear. Ela simplesmente desistiu disso e começou a vasculhar o quarto em busca dos itens que precisaria levar para a escola naquele dia. Número um, seu uniforme. Embora fosse o mais importante, talvez fosse o mais complicado por estar totalmente perdido entre os montes de roupas espalhados por todo o quarto. Certo, número dois então. Mochila com cadernos, livros e compartimentos de doces. Mochila, checado. Compartimento de doces? Vazio. Algo deveria ser feito quanto à isso. Lem jogou a mochila sobre a cama, e percebeu que a saia que era parte de seu uniforme estava em baixo dela. Ela a jogou na cama também. Agora o número três. Havia uma caixa sobre seu armário. E era exatamente a caixa que ela precisava. Estava bem alto, logo a solução era escalar o armário. Ela abriu uma porta, que fez despencar algumas roupas ali de dentro sobre ela. Lem praguejou consigo mesmo e chutou as roupas para o lado. Graças à isso percebeu a camisa do uniforme enrolada em uma calça e um grande chapéu de sol. Nunca fazia sol em sua cidade, mas quem sabe um dia ele serviria para algo? Ela jogou a camisa em cima da saia e voltou-se ao armário. Ela apoiou um pé sobre a parte de dentro do armário e subiu, segurando numa das gavetas mais altas, e se esticou para pegar a caixa lá em cima. Ela conseguiu tocar um dedo na caixa, mas isso só a fez ir mais para longe. Lem suspirou meio irritada e saltou de para o chão. - Tá bom, caixa dos infernos. Fique aí. Já vou dar um jeito em você - Ela decidiu voltar ao número um e pegou seu uniforme para se trocar e foi até a porta do quarto. Era cerca de seis e meia da manhã, o sol tinha acabado de nascer e a casa estava em certo silêncio. Seus pais e os empregados só começariam a rondar a casa daqui a umas duas horas. Lem gostava de acordar bem cedo para se aprontar antes de todos e poder sair de casa sem falar com ninguém. Ela vestiu suas meias, apenas para não fazer nenhum barulho ao pisar, e foi até o banheiro mais próximo. que ficava a um corredor mal iluminado e uma curva à esquerda numa estátua de uma mulher segurando uma espada de distância. Era o banheiro antigo dos funcionários, mas desde que um empregado foi pego de flagrante usando os sais de banho pessoais da mãe de Lem junto com uma garrafa de vinho cara do pai dela, todos começaram a evitar de usá-lo. - Aquele cara... foi meu herói. Quando fiquei sabendo do que fez, tive que pedir licença pra gargalhar longe de todo mundo. Pena que ele foi demitido. Talvez hoje fôssemos amigos... -Afinal alguém sempre espiava ali pra saber se quem o estava usando havia roubado algo também. Lem sabia disso e colocava uma toalha sobre a fechadura, só por garantia. Ela não demorou muito e já voltava para seu quarto, trazendo consigo a estátua. Subiu mais uma vez no armário e usou a espada da estátua para puxar a caixa para si. Ela esboçou um sorrisinho de vitória antes de perceber que não estava mais puxando a caixa mas mesmo assim ela ainda vinha em sua direção mais rápido do que o tempo que ela levou para reagir. Um baque bem alto anunciou à casa toda que Lem estava acordada. Ela se levantou coçando a cabeça dolorida, e praguejando a caixa, o armário e o que ela queria pegar daquela caixa. - Caixa, eu declaro que à partir de hoje somos inimigas mortais. - Se pôs em pé novamente, calçou seu par de botas favorito e terminou de se arrumar. Lem costumava usar a camisa do uniforme por baixo de uma regata roxa, sua cor favorita, com um desenho engraçadinho de um pinguim com a frase «posso parecer fofinho mas se tiver a chance, vou comer você». Ela pôs a mochila nas costas, e já ia se apressando pra sair quando se lembrou de voltar e abrir a caixa. Ela olhou pros lados procurando a estátua, apenas para perceber que ela havia quebrado com a queda. Lem deu de ombros e pegou a mãozinha com espada dela e usou para cortar a fita adesiva que lacrava a caixa. Abriu ela com pressa e uma onda de pó levantou, fazendo-a tossir algumas vezes. Por sorte, o item que ela procurava estava logo em cima, sobre um livro tão velho que parecia estar se desfazendo. Uma velha adaga com algum animal gravado no cabo. Era bonita, bastante enfeitada e talvez fosse feita de ouro. Devia ter sido parte da coleção de alguém um dia. Será novamente agora. - Você vai ter que valer a pena por estragar minha manhã - Lem a enfiou na mochila, fechou e se levantou. Chutou a caixa e as partes da estátua pra baixo da cama, onde talvez fiquem pra sempre, até que alguém procure novamente. Subiu na sua mesa de canto para alcançar o teto solar, e olhou lá fora por um momento. Ela gostava da manhã, e da noite. Era muito calmo, silencioso e tinha um cheiro diferente do resto do dia. Lem fechou seus grandes olhos de cor verde brilhante por uns segundos e respirou fundo, aproveitando o momento. Então abriu novamente num movimento rápido e começou a corrida diária. Passou rapidinho pela cozinha pra abastecer seus compartimentos de doces e saiu de casa conseguindo ter falado apenas com o porteiro.

Era muito antes da hora de entrar na escola, mas Lem gostava de sair enquanto ainda estava amanhecendo e aproveitar para passar no lugar de sempre. Uma casa grande e bonita, apesar de muito antiga, que se destacava em meio à simplicidade da maior parte da cidade. Ela não tinha porteiro, apenas um portão velho e enferrujado, fechado com uma corrente grande e um cadeado. Depois do portão, havia um jardim cheio de flores e plantas que haviam dominado a frente da casa, tampando a vista. Parecia abandonada, e algumas crianças tinham medo daquela casa. Lá morava apenas uma velhinha, que já havia se acostumado a ser acordada por sua neta todas as manhãs.

- Vó, cheguei... Se precisar de mim, estou lá nos fundos, ok? - Lem já tinha todas as chaves, e apenas entrava correndo passando pelo corredor do lado esquerdo da casa onde sempre encontrava sua avó na janela de seu quarto.

- Não vá se atrasar de novo pra ir à escola, ou seus pais irão pensar que a culpa é minha. – gritou a velha já desperta pela companhia para a neta que passava correndo.

- Avisa quando for hora de sair, tá? - Lem disse enquanto fechava a porta do quartinho que ficava no fundo do quintal.

Antes mesmo que a avó pudesse responder, a menina já estava trancada na biblioteca nos fundos da casa, onde havia uma coleção de livros que a velha Hana herdara de seu falecido marido. Embora agora parecesse que era mais de Lem do que da própria dona.

Lem adorava ficar horas perambulando as enormes estantes, cheias dos mais diferentes tipos de histórias emocionantes.

Naquele lugar ela sempre sentia que tinha algo novo para aprender, e sempre imaginou, lá no fundo de sua mente, se haveria um livro no meio de todos aqueles que lhe revelaria o segredo para fazer de sua vida tudo que ela quisesse.

Quando ela escolhia um livro entre os tantos que já havia lido, não via mais o tempo passar, e acabava se irritando quando a avó batia na porta depois de umas horas.

- Já é hora de ir, Lem. Apresse-se pra não se atrasar... - Hana falava baixinho por uma fresta da porta. Lem tinha que dar o braço a torcer. Sua avó respeitava mesmo seu espaço.

- Hmm... Ta legal Vó, já vou... - Lem falou enquanto terminava de ler uma linha e colocava um marcador na página.

- Porque nunca leva o livro para terminar em sua casa? Sabe que eu não me importo... – perguntou Hana - Não é mais fácil que se atrasar todos os dias pra escola?

- Mas eu gosto de ler aqui Vó... - o local era essencial para a experiência na cabeça de Lem. E o fato de seus pais desaprovarem a maior parte de suas leituras também influenciava na decisão.

-Não conseguiria ler tranqüila em casa, tendo que me preocupar com minha mãe querendo jogar meu livro fora quando não estou vendo... – pensou em dizer isso, mas não queria que a avó soubesse que ela não gostava muito de sua mãe. Afinal era a filha de Hana, e ela poderia se magoar. Lem preferia que ela fosse sua mãe, pra ter alguém que a entenda e não alguém que ficava lhe dizendo o que fazer e não fazer, tirando de Lem a pouca liberdade que ela gostava tanto de ter.

Lem se apressou, para que a avó não precisasse lhe pedir novamente, colocou o livro que estava lendo em cima de uma das mesas, a que estava mais perto da porta, e saiu dizendo até amanhã pra sua vó.

O caminho que ela ia era a outra coisa favorita dela naquela cidade, fora a biblioteca da Hanna. Ela passava por uma estrada que ficava na beira de uma colina. Era o caminho mais longo, mas era onde ninguém nunca aparecia. Dali não se via a cidade, apenas um enorme campo cheio de flores, uma grande árvore no meio e no fim do campo, o mar.

-Cores. Vida. Porque a vida só está em coisas que não se mechem? Achei que os humanos tinham direito de viver também. –

Lem não sabia o nome de nenhuma daquelas flores, e preferia nunca estudar sobre isso pra aprender. Não saber seus nomes e características realçava a magia delas. Na beirada da colina havia uma barra de metal, para impedir alguém ou alguma coisa de cair lá de cima. Lem subia nela e ficava sentada na beirada, olhando tudo bem de cima. Dava pra sentir o vento frio do mar bater com força no rosto, trazendo o cheiro das flores. Tudo reluzia quando o brilho do sol da manhã refletia no mar, parecendo uma lanterna muito forte realçando as cores das flores. Ver lá de cima todas aquelas cores era algo muito especial pra ela. Era como sentir que a vida existia, e que Ângelo Serale não era parte dessa vida.

A escola era em uma mansão, que pertencera ao antigo dono daquela região, e fora abandonada após sua morte. Algumas salas eram proibidas aos alunos, pois eram os lares de objetos que permaneceram ali após a saída de seu dono. Os alunos não sabiam quais eram esses objetos e começavam a imaginar. Alguns diziam que eram obras de arte, devido à decoração detalhada e requintada da casa, outros diziam que era algo sombrio, já que era proibido. Lem não se importava. Isso não significava muito pra ela. O que a maioria das pessoas considerava arte, pra ela era só objetos feios e tortos que velhos gostavam de exibir quando tinham. Na verdade, ela não se importava muito com mais nada que vinha depois do campo das flores. Parecia que sua vida sempre ficava pra trás contemplando as flores enquanto seu corpo seguia em frente no “piloto-automático”.

Na escola seus sentidos amorteciam... Era um mundo ao qual ela não pertencia, e só agüentava aquele lugar graças à companhia de seus dois únicos amigos.

- Oi Lem... Atrasada outra vez... – disse uma menina ao ver Lem aproximando-se dela - Perdeu a hora se pendurando pra ver seu jardim secreto né?

- Oi “Lilly sempre chego na hora” – respondeu Lem com sarcasmo.

- Hahaha. Sabe que se eu não chego na hora é porque eu quis, e não por descuido né? Faz parte do meu estilo cuidadosamente despojado. - Lilly balançava as mãos com pompa enquanto caminhava na frente de Lem.

- Cuidadosamente despojado? Por favor, você tá mais pra «hippie dos tempos modernos» – disse Lem novamente com sarcasmo.

- Na verdade, não. Eu conheci um hippie uma vez, e eles são sossegados demais. Dá vontade de bater, sabe?

- Ótimo, Lilly... A cada dia se parece mais um menino...

- Mas... - Ela parou na frente de Lem e apontou os dois dedos indicadores para seu rosto - eu seria o menino mais bonito daqui não acha?

Lem havia conhecido Lilly no primeiro ano da escola, quando estudaram na mesma sala. Desde então sempre ficaram juntas; ela era um pouco mais baixa que Lem, e tinha um modo de se vestir um tanto diferente de outras meninas: preferia usar roupas largas e folgadas, o que a deixava parecida com um garoto. Não fosse seu lindo rosto e longos cabelos castanhos, ela realmente pareceria.

- Cadê o Duo? Atrasou-se também? – perguntou Lilly

- Achei que já houvesse chegado... Ele não costuma se atrasar... – respondeu Lem.

- Bom, vou pra sala... Não quero ficar aqui no pátio olhando esse monte de fúteis...

- Vá na frente, superior...

- Chega de sarcasmo por hoje. – comentou Lilly

As duas passaram pelos outros alunos e ficaram conversando sozinhas na sala até que o sinal tocou e os outros alunos começaram a entrar. Duo, Porém, não entrou.

- Hmmm. Acho que ele não vem hoje... – comentou Lem

- Não acho... Mesmo que não goste de assumir ele é o tipo responsável... Hoje era pra entregar um trabalho lembra? Se não veio ainda é porque aconteceu algo.

- Será? Oh... Havia me esquecido do trabalho... Posso copiar o seu? – Perguntou Lem sem se importar muito com o fato de ser errado copiar o trabalho dos outros.

- Ta, mas você fica me devendo o trabalho de português.

- Ok

Lem não gostava muito de nenhuma matéria, mas tinha certa afinidade com o português, talvez pelo fato de ler muito...

Já era a hora do intervalo e Duo ainda não havia aparecido. Assim, as duas assumiram que ele havia mesmo faltado.

Os três costumavam ficar juntos debaixo de uma grande árvore nos fundos da escola na hora do recreio, assim podiam ficar em paz longe de todo o barulho. Mas naquele dia o barulho estava maior do que de costume. Elas podiam ouvir risos vindo do corredor e foram pra lá para saber o motivo. Mesmo que já tivessem uma idéia do que fosse.

- Esse lugar combina perfeitamente com você não é? HAHAHA!

- ...

- Não vai falar nada? Deve estar chorando e se falar, vamos perceber né?

- ...

Um garoto muito grande, provavelmente do primeiro colegial, estava falando com a porta do banheiro. E todos riam disso, o que fazia o brutamontes continuar seus insultos para o objeto:

- Ora, será que se afogou em algum vaso sanitário pra que nunca mais nós precisemos ver sua cara? Seria uma pena, queria fazer isso com você eu mesmo...

-Que bonitinho. É o tipo “genro-perfeito”. Quero um desses lá em casa. Com o tanto de atenção que ele gosta de atrair me ajudaria muito na hora de sair sem ninguém me notar. – disse Lem para si mesma.

Lilly e Lem se aproximaram, e perguntaram a uma menina que não ria com os outros, o motivo daquela confusão.

- Ei, com licença, mas por que aquele idiota ta falando com a porta? – perguntou Lilly apontando para o garoto grande.

- É que eles prenderam um menino no banheiro das meninas... Acho que ele está ali desde de manhã... E agora não deixam ele sair e nem a gente entrar... – respondeu a menina que parecia estar mesmo precisando entrar ali.

Lilly se virou para Lem, e pela troca de olhares entre as duas, nem precisaram dizer nada pra saberem quem estava preso lá dentro.

Lilly tinha a fama de se parecer com um garoto, e suas roupas não eram o único motivo disso. Sem se importar com o tamanho do garoto que estava ali rodeado de seus amigos quase tão grandes como ele, ela passou por todos até ficar cara a cara com o gigante idiota.

- Saia da frente. Quero entrar. – disse Lilly com firmeza e um rosto de poucos amigos.

Mas antes que o garoto pudesse responder, uma voz veio por de trás da porta, em resposta à voz de Lilly.

- É você não é? Saia daqui. Eu estou bem. – disse o menino que estava preso

- Não seja orgulhoso, eu te ajudo agora e você me ajuda depois. Assim ficamos quites. – Lilly disse num tom mais gentil do que o normal (para ela).

- Tsc... Mesmo se eu disser que não, você vai continuar né?

- Vou sim. – agora num tom mais firme, se virou novamente para o autor da brincadeira. – Saia daí agora e nos deixe passar.

O garoto olhou surpreso para aqueles olhos ameaçadores. Nunca antes em sua vida havia sido ameaçado por uma menina. Muito menos por uma que parecia um menino. Mas como seus colegas estavam ali olhando, ele fingiu que não se abalou e a enfrentou.

- Escuta menininha, sei que você deve estar se borrando de medo, mas não pode usar o banheiro pra isso hoje. Saia daqui antes que se machuq...

Antes que pudesse terminar de falar Lilly lhe deu um soco na boca, derrubando-o no chão com um estalo, deixando todos os presentes boquiabertos. Menos Lem.

-Às vezes até esqueço porque não gosto desse lugar... - Pensou Lem, que se divertia vendo a amiga destruir e pisar no ego de gente como aquele garoto.

- Acho que agora tá começando a entender... – disse enquanto esfregava os punhos, olhou para os outros garotos que a admiravam com faces surpresas então exclamou – As menininhas daqui revidam. E não gostamos de brincar com crianças.

A cena rendeu uma breve salva de aplausos para Lilly por parte dos presentes. Lem já havia aberto a porta do banheiro e libertara Duo que não parecia muito abalado. Na verdade pra ele aquilo era um tanto comum. Sempre fora tratado como estranho e anormal, e meninos grandes que se achavam superiores adoravam tratá-lo assim. Já ficara preso na sala do zelador numa outra ocasião, e também fora salvo por Lilly. No começo não se importou de ser salvo por ela, mas já se tornara tão comum que sentia que devia a ela. E isso o deixava constrangido. Ele era um garoto tímido e reservado, não muito alto, que acabara se tornando amigo das duas no ano passado, quando se mudou pra aquela cidade junto de seus pais, que queriam viver em um lugar tranqüilo.

- Obrigado... Mas gostaria que não me salvasse de novo se eu não te pedir... – Disse baixinho a Lilly, assim que saiu de seu cativo.

- Tem horas que não dá pra pedir. E você não devia se importar com isso. Achei que não fosse machista...

- Não sou. Não me importo de ser salvo por uma mulher, se precisar, mas não quero ficar te devendo mais que já estou.

- Ótimo. Fico feliz em ouvir isso. Agora você tem um motivo pra emprestar suas lições pra eu copiar. O que acha?

- ...Certo... Mas não me culpe se não aprender nada.

Os três saíram dali, sendo acompanhados pelos olhares de todos, menos da garotinha que se apressava em entrar no banheiro. O garoto ogro ainda estava deitado no chão, e se alternava em encará-los franzindo as sobrancelhas e cochichar alguma coisa com seus colegas.

- Vamos pra lá, quero chegar logo na sala de aula antes que fique cheia... - Lilly apontou a direção com o dedo e fez um sinal para os dois acompanharem ela pra sala de aula, como era o plano original, mas estava aparecendo mais gente ali pra ver o que aconteceu. Um deles era o monitor de salas que vinha analisando a situação procurando problemas e gente pra acusar e a ultima coisa que eles queriam agora era ter que explicar o que aconteceu. - Certo, vamos para o outro lado. - Lilly virou o dedo na direção oposta e deu meia volta sobre o calcanhar. Eles saíram dali no meio da confusão e voltaram pelo mesmo caminho. Duo e Lem seguiam e Lilly ia à frente. Eles fizeram a volta no pequeno jardim e entraram no corredor proibido passando por baixo da fita de aviso um de cada vez, pra voltar ao saguão de entrada. Lilly caminhava despreocupadamente, olhando para os quadros e deslizando os dedos nas paredes. Duo chegou devagar ao lado de Lem e sussurrou algo que Lem não conseguiu identificar. A garota respondeu com uma expressão de dúvida, fazendo o garoto rolar os olhos. Duo desenhou uma linha no ar e fingiu que pegava ela e esfaqueava Lem. Ela ainda demorou uns segundos até entender o que ele queria dizer. Então tirou a mochila do ombro e abriu o zíper devagar pra não fazer barulho e Lilly perceber. A adaga estava logo ali em cima dos livros, Lem a puxou pra fora da mochila quando Lilly começou a se virar. Lem jogou a adaga sobre Duo, que não pensou rápido o bastante e acabou rebatendo o objeto pra cima. Algumas vezes. Lilly parou de andar e começou a observar a apresentação de malabarismo de Duo, até que ele deixou o objeto cair e com um chute não intencional ele empurrou a adaga pra dentro de uma sala pela fresta da porta. Lem e Lilly ficaram encarando o garoto que olhou de volta pra elas com o rosto corado depois de uns segundos.

- Feliz dia do amigo Lilly... – Duo disse desviando o olhar e escondendo as mãos nos bolsos. A garota levantou uma sobrancelha com uma expressão de dúvida. – Seu presente tá ali. - Duo disse apontando pra fresta da porta com o indicador. As duas se olharam e suspiraram.

- Que é isso de dia do amigo? – Lilly perguntou enquanto caminhava até a porta em questão.

- Hoje não é nenhuma data especial, mas como eu disse antes eu não quero ficar devendo pra você. Então como eu sei que você gosta de colecionar armas e esse tipo de coisa perigosa que dá má fama pras pessoas... – ele falou essa parte lançando um olhar acusatório pra garota, que respondeu mostrando a língua pra ele - ...eu achei que fosse gostar desse presente. Espero que valha pra agradecer por sempre me ajudar e livrar minha cara.

- Ooh... – Lilly abriu a porta e se abaixou pra pegar a adaga do chão. Mas foi Lem que se surpreendeu ao ver que a tal sala era algum tipo de galeria. No fundo da sala, a primeira coisa a se ver pra quem entrasse era a parede com uma estante larga que tinha uma coleção que podia fazer inveja até à Hanna. Estava meio empoeirada, mas era colorida e muito chamativa pra Lem. Encostadas nas paredes laterais, alguns pedestais com obras de arte, estátuas e materiais que Lem não sabia exatamente o que eram. Nas paredes tinham várias pinturas, quase que totalmente cobertas de poeira. Lem conseguiu discernir a imagem de uma mulher que parecia ser muito bonita, com cabelos loiros e olhos verdes como os dela. Ela tinha um sorriso bondoso e agradável que parecia combinar muito bem com seu rosto. Ela estava sentada em um jardim, e em sua mão tinha uma coroa de flores. Na outra parede, havia outra pintura de um garoto que devia ter mais ou menos a sua idade. Os olhos verdes dele, quase acesos, chamavam atenção mesmo por trás da camada cinza de pó. Ele vestia um tipo de terno meio antigo e tinha cabelos castanhos que pareciam ter sido penteados para fora de seu rosto contra sua vontade. Sua expressão meio arrogante, meio misteriosa, disposta em um meio sorriso deixou Lem intrigada. Então ela sentiu algo tocar seu ombro e o susto a fez sair de dentro de sua própria imaginação.

- Ei Lem, você me ouviu? – Lilly estava com uma mão em seu ombro, e na outra ela balançava a adaga, mostrando para a amiga.

- Aah... Desculpe, eu me distraí...

- Essa parte eu percebi, parece que você achou seu lugar no mundo aqui dentro né? – Lem franziu as sobrancelhas com o comentário. Lilly deu um risinho e olhou para Duo – Acho que alguém vai gostar de vir pra escola de agora em diante.

- Essa sala é proibida para os alunos, por isso acho que ela não vai conseguir passar muito tempo aqui. E a gente não devia fazer isso também, vamos pra sala. – Duo disse já se encaminhando pra fora e esperando que elas o seguissem.

- Não seja covarde, deixa a menina curtir o depósito empoeirado. Se é desse tipo de coisa que ela gosta... – Lilly a olhou de cima a baixo teatralmente e deu um passinho pra longe. Lem rolou os olhos.

- Sinto muito por gostar de livros e cultura, e não de algo selvagem como armas. Embora admito que a parte do pó não me atrai muito... – Lem passou o dedo sobre o canto da mesa mais próxima e deixou uma pequena marca no meio da sujeira.

- Não seja uma sabe-tudo intelectual, eu ainda quero ser sua amiga. – Lilly passou o dedo na mesa também, cruzando com a marca de Lem, fazendo um X.

- Não é meu estilo.

- Legal, vamos então? – Duo pôs só a cabeça pra dentro da sala para chamar as duas. E então ficou olhando para os lados como se esperasse ser pego a qualquer momento. - Acho que o sinal de entrada acabou de tocar...

- Tá, vamos lá. Porque o Duo tá com medo de pegarem ele fazendo algo errado. – Lilly guardou a adaga dentro da cintura da calça e escondeu com a camisa.

- Não estou com medo. Só não quero que desconfiem de mim em nada. Não quero que os professores decidam ficar de olho em mim e comecem a vir falar comigo o tempo todo... – Duo esperou as duas saírem e tentou deixar apenas uma fresta da porta aberta, exatamente como estava antes de entrarem lá. Lem deu uma última olhada na direção da sala antes de ir embora. Ela estava mesmo cogitando voltar ali. Seria um ótimo refúgio e fonte de diversão. Quando começou a caminhar junto dos dois amigos, eles ouviram um baque vindo de dentro da sala. Como se algo tivesse acabado de cair no chão e quebrado. Os três olharam pra porta do quarto assustados, então se olharam e sem precisar dizer uma palavra, começaram a correr pra longe dali. Eles pularam a fita que tampava a entrada do corredor e se esconderam no canto da parede, um pouco ofegantes. Então puseram a cabeça pra espiar se alguém, ou alguma coisa tinha saído de lá, mas tudo parecia normal. Então respiraram aliviados e continuaram indo pra sala de aula. Duo continuou com o discurso sobre não querer ser notado e sobre não fazer algo perigoso assim outra vez até chegarem lá. As duas decidiram só balançar a cabeça e fazer algum comentário curto quando ele parava pra respirar, esperando que acabasse logo. O resto do dia na escola foi normal para eles, e na hora do intervalo eles foram espiar o corredor pelo canto da parede mais uma vez, só pra garantir que a porta ainda estava na mesma posição e que ninguém tinha ido pra lá. Lem costumava acompanhar Lilly até parte do caminho de volta.

As duas se separaram depois da colina com o campo das flores, Lilly morava no outro lado da cidade e seguia pelo resto do caminho sozinha.

Lem já começava a praticar a cara de boa menina à essa hora. Era a primeira vez hora do dia em que teria que encarar seus pais sem poder escapar, o que significava que ela teria que começar as formalidades, prática de etiqueta e boas maneiras. Seus pais queriam fazer dela uma dama que visa o sucesso e bons contatos. Por isso eles não costumavam ser muito amigáveis com Lilly e Duo, que eram considerados más influências. Lem se arrependia bastante de ter convidado os dois para passar uma tarde em sua casa. No momento que seus pais os viram, ambos os trataram como seres estranhos, deixando Lem muito sem graça. Ela se identificava com os dois, e se eles eram estranhos não faria diferença. Apesar disso, Lem não sentia raiva deles por isso, só se incomodava por não ter a liberdade de ser quem ela quisesse e escolher os amigos pelo que eles são, e não pelo que tem. Ao chegar em sua casa, entrou rápido e subiu as escadas pro primeiro andar, e depois para o sótão onde ficava seu quarto. Jogou a mochila sobre a cama, e sentou-se ao lado dela por uns segundos. Então lembrou do que fizera naquela manhã e foi até sua mesinha com o espelho. Abriu algumas gavetas até achar o que estava procurando. Um tubinho de cola e um pouco de fita adesiva. Lem enfiou a mão em baixo da cama e puxou tudo que conseguiu sentir que estava lá em baixo pra fora. Tinha muita sujeira ali. Alguns pés de meia sem par, um pouco de poeira, uma caneta, várias embalagens de doce, a caixa que costumava estar em cima do seu guarda-roupas e a estátua que ela quebrou. Mas a mãozinha dela que segurava a espada não estava em lugar nenhum. Lem se abaixou, encostando o rosto no chão para ver melhor em baixo da cama mas não estava lá. Ela se sentou cruzando as pernas e bufou, perguntando a si mesmo onde havia deixado aquela mão. Então se lembrou que tinha usado a espadinha pra abrir a caixa, e puxou a caixa pra perto pra dar uma olhada. Bingo. Estava no mesmo lugar onde estava a adaga. Em cima de um livro grande e muito velho. Lem apenas ignorou o resto do conteúdo da caixa e chutou tudo de novo pra baixo da cama. Então pegou as duas partes da estátua e a cola, e subiu pro lado de fora do teto solar. Ela gostava de fazer isso e ficar sentada no telhado observando o sol se pôr em tons de laranja. Até onde ela sabia, ninguém nunca a tinha visto fazendo isso... Ou pelo menos, nunca comentaram nada sobre. Era algo que ela se orgulhava de poder dizer que era um segredo só seu. Em cerca de meia hora ela teria que encontrar sua mãe no escritório dela para a aula de etiqueta, então ela se apressou e terminou de concertar a mão da espada o melhor que pôde e deixou ela ali pra secar com o resto de sol que o dia iria oferecer. Desceu pra se arrumar pra aula e deixou as próximas horas passarem no piloto-automático. Fez a aula junto de sua mãe, depois experimentou um vestido que ela tinha comprado especialmente pra Lem, mesmo que a própria já houvesse dito algumas vezes que detestava usar vestidos, e por último foram jantar junto de seu pai, onde ela vestia sua máscara de boa filha e fingia que não fazia nada fora dos padrões de comportamento na escola. Apenas quando subia de novo para seu quarto, ela relaxava. Às vezes ela só colocava a cabeça pra fora do teto solar e ficava observando as estrelas enquanto saboreava alguns doces roubados da dispensa. Ou apenas abria o teto solar e ficava na sua mesinha sentindo o ar frio da noite enquanto fazia a lição de casa. Mas o mais frequente era ficar sentada lá fora no telhado e ir repassando na cabeça as historias dos livros que lia na casa de sua avó. Ela se imaginava em mundos onde podia fazer tudo que quisesse. Não mundos fantásticos com poderes especiais ou algo parecido, tudo que ela queria fazer era ter a liberdade de seguir seu coração e não precisar ser quem não era só pra agradar os outros. Era esse o tipo de lugar que ela imaginava.

-Acho que seria mais fácil se eu me mudasse pra Antártida. Tem pingüins lá. Eles é que são felizes. Não precisam trocar de roupa, pois estão sempre elegantes. E claro, são todos iguais. Ninguém é mais estranho que ninguém. -

Ficava pensando até que o sono a vencia e ela ia pra cama, mergulhar num estranho escuro. Lem nunca se perguntou o motivo de não conseguir se lembrar de seus sonhos, se é que sonhava, mas nunca se importou. Sua vida já era suficientemente parecida com um sonho. Um sonho chato e entediante do qual não conseguia acordar nunca. Então de repente, o despertador a tirava do vazio anunciando outro sonho. 

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