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Esqueceu a Senha?

Capítulos (3 de 8) 05 Aug, 2018

Capítulo 6

Capítulo 6: Passeio no parque

Sábado, 16 de outubro de 2023, 11:40 h.

Acordei com meu celular tocando.

– Que horas são?... – tirei o rosto amassado do travesseiro e olhei para o relógio – Quem será a essa hora? – atendi o telefone – Alô?

– Bom dia Ty, o que fará a tarde?

– Kiria? – A voz era parecida.

– Sim. – Eu estava certo.

– Nada a princípio, por quê?

– Bem, é que...

– Deixa eu falar com ele.

– Espera, não fica puxando o celular da minha mão.

– Rapidinho. – Ela estava discutindo com alguém.

– Ta tudo bem Kiria? – Perguntei, preocupado.

– Bom dia senhor Lavinier, como vai? – A voz era de homem, porém suave.

– Quem é?

– Oh, que rude da minha parte. Me chamo Yuen, já nos vimos algumas vezes por ai.

– Hum. Bem, olá.

– Gostaríamos de lhe convidar, eu e a senhorita Muray, para juntar-se a nós em um passeio ao parque de diversão nessa tarde linda de sol. O que me diz?

Olhei para a tela do meu computador, meu jogo online estava rodando, meu personagem estava atacando sozinho em uma área de monstros agressivos, ganhando xp. Prendi a tecla de ataque com um pedaço de papel dobrado. Hm. Uma tarde em casa jogando ou uma tarde com a Kiria? Acho que vou ficar em casa...

– Eu... – olhei para Roku jogado no chão, dormindo – Aceito. Que horas?

– As duas da tarde na entrada do parque. Não vá se atrasar. Até mais tarde, senhor Lavinier. – Desligamos.

Rolei na cama até cair no chão, ficando ao lado de Roku, e me aproximei de seu ouvido de forma furtiva.

– ACORDA!!!

– GWAA!!! – ele deu um pulo – MALDITO! POR QUE FEZ ISSO?!!

Cai na gargalhada.

– Que belo espírito guardião que você é. Se fosse um inimigo, eu já estaria morto.

– Olha quem falando! O invocador que não sabe nem manipular o próprio karma!

– Eu não pedi pra ser assombrado!

– Nem eu pra ficar preso a um fracote que nem você!

– Grrr! – Ficamos nos encarando, mas nosso duelo visual foi interrompido pelo meu celular vibrando.

O peguei para ver o que era.

– Ué, uma mensagem da Pirsla? Está me convidando para ir ao parque com as garotas... Caralho! Se ela me ver lá com a Kiria, ela vai pensar que... Não, pera, vai ter o tal de Yuen junto. Não vai ter problema.

– Hum? Será que alguém está caidinho por essa tal Pirsla? – Roku ficou me olhando com seu jeito assustador e ao mesmo tempo zombeteiro.

– Não fala besteira, senhor assassino adormecido. – Me espreguicei e fui até o banheiro, onde fiz tudo que tinha que fazer em menos de dez minutos, voltando para o quarto enrolado em uma toalha.

Quando entrei no quarto, Roku levantou em um pulo da cama e ficou alerta.

– Ty...

– Hum? – Tirei a toalha e comecei a me vestir.

– Temos companhia.

– Como assim? – Terminei de colocar a cinta. Três batidas na porta me fizeram olhar para Roku, apreensivo.

Fui até a porta e abri uma fresta para ver quem era. Ian estava parado em frente a porta e acenou para mim com um sorriso. Abri a porta.

– E ai Tyson. Te acordei? – Ele percebeu que eu estava sem camisa e descabelado.

– Não, recém saí do banho. – Ele ficou me olhando com um sorriso e eu o encarando sem saber como ele descobriu onde eu morava.

Roku se aproximou do meu ouvido.

– Acho que ele quer que o convide para entrar. – Sussurrou ele.

– Hm, bem... Entre.

– Obrigado. – Ian entrou – Você tem um apartamento bem... – meu apartamento era uma bagunça – Com personalidade.

– Senta ai. Vou pegar algo pra beber. – Fui até a geladeira e peguei duas garrafinhas de energético.

Quando voltei, Aegir estava materializado, sentado ao lado de Ian, conversando com Roku, que estava sentado no braço do sofá. Os três riam como se fossem amigos. Entreguei um energético para o convidado inesperado.

– Obrigado, Tyson.

Sentei na beirada da mesa de centro, em frente ao sofá.

– Então... – abri o meu energético e dei um gole – Como descobriu onde eu moro?

– Perguntei para sua amiga que mora aqui também, antes de ir embora ontem.

– Aquela lá vai acabar me matando por sair dizendo onde eu moro pra qualquer um.

– Meu mestre não é qualquer um! – Exaltou-se Aegir, que era um guerreiro de longos cabelos ruivos e olhar determinado.

Senti uma ponta de medo, mas consegui não demonstrar.

– Já volto. – Sai da sala e fui até meu quarto.

– Aegir, comporte-se. Não esqueça que estamos na casa dele.

– Desculpe, mestre...

Roku riu da cena.

– Não precisa tudo isso. O Ty é desleixado e não liga pra formalidades.

– EU OUVI!! – Gritei do quarto.

– Mas tem o ouvido de um assassino. – Brincou Roku, fazendo todos rirem.

Voltei para a sala, havia ido vestir a camisa, pôr meu relógio e pegar minha carteira.

– Pronto. – peguei a garrafinha de energético que tinha deixado em cima da mesa de centro e virei tudo de uma vez só, largando a garrafa vazia – Já que chegaram quando eu estava saindo para almoçar, não querem ir comigo?

– Almoçar com você? – Ian pareceu surpreso.

– Sim. Vamos?

Ele acabou ficando animado.

– Vamos!

Saímos do apartamento, chaveei a porta e fomos de escada.

– Você é de onde, Ian? – Perguntei ao sairmos do prédio. Fazia um dia ensolarado.

– Nasci em Graver, mas me mudei para Petroria aos quatro anos.

– Você nasceu no país vizinho? Não teve problemas ao migrar para cá? Nossos países são inimigos declarados, entrando em batalhas tanto políticas quando militares.

– É, eu sei. Mas meu pai mudou para Petroria como asilo político. Ele era um militar que revelou segredos militares importantes.

– Você mora com seus pais?

Ele ficou sério pela primeira vez.

– Estão mortos. Agentes de Graver conseguiram se infiltrar em Petroria e os mataram na minha frente... – ele fitava o chão, mas então olhou para mim e sorriu – Eu tinha 11 anos. Desde então consigo ver espíritos. Um ano depois conheci Aegir. Ele é um antigo e respeitado guerreiro nômade que morreu protegendo sua vila dos invasores, os quais matou todos antes de morrer por causa dos ferimentos.

– Grandes coisa. – Resmungou Roku, de braços cruzados, emburrado.

– E você, onde encontrou Roku?

– Eu o encontrei em um cemitério após ter sua cruz profanada. Ele era um escravo sexual de um velho ancião de uma vila muito rica.

Roku desviou o olhar, claramente abalado. Ian também pareceu ficar chateado.

– Acho que ele não gosta de falar do passado.

Olhei surpreso para minha assombração, mas não falei nada. Não pensei que ele se ofenderia tanto com uma mera brincadeira.

Avistamos uma churrascaria mais a frente, mas entrei em um beco. Eles me seguiram, então estendi a mão no ar. Ficaram olhando sem entender.

– Bate logo Roku, não vou ficar esperando.

– Você permitirá que seu guardião o acompanhe? Que legal da sua parte, Tyson! Aegir, apareça!

– Ty... – Roku ficou me encarando por um tempo, mas então bateu na minha mão.

– Pronto! Vamos comer! – Sai fazendo a frente.

– Vamos! – Comemoraram Ian e Aegir.

Na churrascaria, Aegir pediu uma costela inteira só para ele, sem falar que chamava atenção por suas roupas nômades, enquanto Roku usava minhas roupas, já que quando apareceu para mim pela primeira vez, estava nu.

– Bom apetite. – Comecei a comer minha picanha no ponto.

– A-Aegir! – Ian ficou vermelho de vergonha quando Aegir pegou a costela com as mãos e começou a comê-la como se tocasse gaita.

– Desculpe, mestre! Aprenderei a usar estes instrumentos! – Ele pegou o garfo e a faca, cortando, de forma desajeitada, enormes pedaços que mal cabiam em sua boca.

Roku por outro lado, sabia se portar, a única coisa que era irritante era que comia de boca aberta, como se tivesse mascando chiclete.

13:12 h.

– Desculpe Tyson, eu juro que vou lhe pagar na escola. – Ian estava sem jeito, pois Aegir havia comido quatro costelas inteiras, saindo mais caro do que ele tinha de dinheiro na hora, me fazendo pagar a diferença.

– Já estou me acostumado de ser banco dos outros.

– Desculpe, mestre! – Aegir se desculpava com Ian.

– Peça desculpas para o Tyson, não para mim. – Aegir me olhou sério e apenas acenou com a cabeça, então desapareceu – Ha... – suspirou o garoto – Desculpe por isso, ele é muito orgulhoso.

– Tudo bem, não se preocupe com isso. – Eu nunca havia tido tanta interação social quanto estava tendo essa semana. Desde que Roku passou a me acompanhar, as coisas mudaram. É como se ter alguém sempre comigo, sem nenhuma privacidade, tivesse tirado minha timidez e medo das pessoas.

Olhei no relógio do celular, ainda tinha tempo sobrando.

– O que vai fazer agora, Tyson? – Ian me olhava ansioso para continuar passeando.

– Que tal comprar umas roupas para o seu fantasma, assim ele pode se materializar mais vezes sem comprometer sua identidade de invocador.

– Boa ideia!

– Me-me-me-mestrezinho! – Aegir apareceu com cara de quem não gostou da ideia, porém sem coragem de ir contra a vontade de seu invocador.

– Ótimo! Vamos a loja de roupas que tem perto do parque, é de um velho amigo de meu pai.

– Vamos! – Ian estava eufórico.

Fomos caminhando até a loja para aproveitar o belo dia de sol, também porque não tinha muito dinheiro para gastar com táxi.

Acabou sendo divertido comprar roupas para nossos espíritos guardiões. Roku escolheu todas suas roupas, ficando mais apresentável, enquanto Ian escolhia as roupas para Aegir, que estava quase chorando de vergonha por ter seu orgulho de guerreiro jogado no chão e pisoteado, colocando a lealdade a seu mestre acima de tudo.

– Ty, está na hora. – Disse Roku, vestindo as roupas novas.

A vendedora se aproximou e foi somando os preços enquanto arrancava as etiquetas. Tive que fazer sinal para Roku ficar calmo com a mulher lhe rodeando. Tudo somado, fui até o balcão e paguei. Ian chegou bem na hora, tive que pagar as roupas de Aegir também, já que ele esqueceu que tinha gastado todo seu dinheiro na churrascaria.

13:58 h.

Saindo da loja, Ian não para de olhar para Roku.

– Ficou muito legal, Roku. – Elogiou o garoto.

– Tenho bom gosto. – Roku fez uma careta botando a língua para fora.

Olhei a hora no celular, estava na hora.

– Ian, quer ir ao parque?

Ele corou.

– T-t-t-Tyson! Eu não corto pra esse lado. Desculpe se dei a entender errado, mas quero ser apenas seu amigo.

Fui até ele e desferi um tapa na nuca, mas Aegir segurou minha mão antes de atingir a cabeça de seu mestre. Olhei para o fantasma, que me soltou, então me afastei um pouco de Ian.

– Cara, tu é muito bizarro. Vou encontrar um pessoal lá. Até porque, também não corto pra esse lado. – acelerei o passo – Bom, vou indo então. Até.

Ian parou, ficando para trás.

– Por isso que não tenho amigos... Sempre digo as coisas erradas...

– Mestre... – Aegir parou ao lado de seu invocador, tentando confortá-lo.

Na entrada do parque, avistei Kiria e um homem alto de costas.

– Ele veio! – Ela sorriu.

– Claro que ele veio.

– Kiria! – Me aproximei acenando.

Ela acenou de volta, até que parei em sua frente.

– Então, vamos? – Sugeri.

O homem virou para mim, fazendo meu sangue gelar.

– Olá, senhor Lavinier. – Esse tal de Yuen é o maluco que disse que eu morreria!

– Você... – Roku ficou ao meu lado, pronto para lutar.

– Calma, calma. Não sou seu inimigo. Kiria me contou que você quer aprender mais sobre karma, então eu vou ajudá-lo. Apenas quero ter certeza que você não é inimigo.

– É claro que não sou! – olhei para Roku, acenando com a cabeça para ele relaxar. Respirei fundo e forcei um sorriso, olhando para a garota – Vamos entrando?

– Sim. – Respondeu Kiria.

Entramos no parque, que era enorme. Não havia apenas brinquedos normais de um parque de diversão, havia uma área com piscina, uma área verde e uma sala de filmes. Sem falar nas diversas barracas de jogos e comida.

Roku ficou maravilhado com o barco da morte, um brinquedo que era um barco que subia bem alto e descia rapidamente, de um lado para o outro.

– Woow! Veja isso Ty!

– Seu espírito está usando roupas novas? – Estranhou Kiria.

– Sim, comprei agora pouco. Assim ele para de usar as minhas.

Ela riu.

– Vocês são estranhos.

– Não, apenas somos ami... – Roku ficou me olhando, esperando eu completar a frase – Bem, vamos andar nesse barco então!

– E-eu não tenho certeza... – Kiria parecia amedrontada.

Olhei para ela com um sorriso de canto.

– O que acha, Penelope?

– Você consegue vê-la?!

– Não. É boa em deixá-la escondida. Mas que tal deixar ela se divertir um pouco também?

– Deixar meu espírito se divertir... – Kiria ficou me olhando como se eu fosse um alien, mas por fim, sorriu – Tá! Penelope, apareça! Melhor, espere! – Ela olhou em volta, tendo muitas pessoas ao redor.

– Faz assim. Os dois vão para o canto atrás do brinquedo e ela se materializa, ai voltam juntos.

Roku ficou animado.

– Boa ideia, Ty! – Ele foi rapidamente para onde eu apontei.

– Roku, vamos tentar aquilo. – Falei baixinho, com ele acenando com a cabeça.

– Tentar o quê? – indagou Kiria, que ficou ao meu lado. Yuen não ficou conosco, ficava sempre distante, apenas observando.

– Na batalha na escola, Roku conseguiu ficar em sua forma de fantasma e voltar a se materializar sozinho.

– Seu karma está mais estável para ele então.

– Sim. Quero ver se ele conseguirá novamente.

– Muito provável que sim.

Não demorou até os dois voltarem. Roku estava sorridente como uma criança.

– Você se veste combinando com a Penelope, sempre toda de preto. – Brinquei com Kiria.

– Ha-ha. Muito engraçado.

– Ty, ty, ty. Vamos? – Roku já foi rumo ao brinquedo. Penelope o seguiu. Ao olhá-la de costas, percebi que ela estava normal, sem as asas. Parecia uma mulher qualquer.

Kiria parou ao meu lado.

– Sei o que está pensando pelo seu olhar. – disse ela, acenando com a cabeça para Penelope versão humana – Você pode transformar seu espírito. Lembra do que enfrentamos na escola? Ele deveria ser o espírito de um samurai transformado em seu modo Akai.

– Modo Akai? – A olhei, curioso.

– Ei vocês, venham logo! – Roku já estava sentado no barco.

– Depois te explico. – Nos juntamos a eles no barco da morte, que logo começou a se mover. Kiria gritava como uma garotinha, enquanto Roku gritava de emoção, jogando os braços para o alto com um sorriso estampado no rosto pálido.

Após o barco da morte, fomos na roda gigante, no girômetro maluco e carrinho bate-bate. Kiria parecia uma garotinha, ria despreocupada, falava mais abertamente, se divertindo, algo que parecia não fazer muito.

15:34 h.

Sentamos em um banco para tomar sorvete. Eu olhei para todos os lados, nem sinal de Yuen. Como ele planejava me testar?

– Ty!! – Ouvi a voz, me chamando, gritando ao longe.

Ao olhar para direita, vi Pirsla vindo em minha direção, acompanhada de Raquel e Charlote.

– Pirsla?

Ela pulou em meu pescoço me dando um abraço ao se aproximar, então sentou na beirada do banco.

– Você não respondeu a mensagem, achamos que não viria.

– É que... Bem...

– Estamos indo para a sala de filmes. Quer vir?

– Ah, claro. – apontei com a mão para Kiria – Essa é Kiria, ela estuda na nossa escola, está um ano a nossa frente.

– Olá. – Cumprimentou Pirsla. Kiria apenas acenou com a mão.

– Acho que ele está em um encontro. – Sussurrou Raquel.

– Na-não! Não é nada disso. Tinha outra pessoa junto, mas ele sumiu.

Pirsla deu uma risada, achando graça da situação.

– Já que não é um encontro, vamos lá! – Ela me pegou pela mão e me puxou. Fomos todos para a sala de filmes, a qual estava vazia.

Escolhemos um filme de animação, mas elas mais conversavam do que assistiam ao filme. Kiria se deu bem com as malucas. Roku, que estava em sua forma fantasmagórica, ficou ao meu lado, empolgado com o filme.

16:00 h.

– Estão gostando do... – Ao olhar para trás, percebi que as garotas estavam dormindo, a única acordada era Charlote, que colocou o dedo em frente ao nariz para eu ficar em silêncio, sorrindo para mim.

Virei para frente e logo me levantei, indo até a janela que dava direto para a praça verde. Ao olhar para um ponto isolado, vi um homem encapuzado com uma espada na parte de trás da cintura. Ele olhava diretamente para mim, mas sumiu no ar em um piscar de olhos. Me afastei da janela e sentei novamente, olhando para Roku de canto. Ele não tinha percebido nada estranho, geralmente ele fica inquieto quando tem algum inimigo ao redor.

Por fim, o filme acabou e fomos embora, nos despedimos de Pirsla e as garotas na saída do parque, enquanto eu acompanhava Kiria.

18:20 h.

– Obrigada, me diverti muito. – Disse Kiria. Estávamos parados em frente a uma casa comum, mostrando que pensei errado quando achei que ela morava em um apartamento no centro, onde a vi alguns dias atrás.

– Eu também. – olhei para o lado, Roku e Penelope estavam um pouco mais ao lado, conversando – Parece que ficaram amigos.

– É...

– Bem, vou deixar você entrar. Nos vemos na escola.

– Tá! – Ela sorriu de um modo tão meigo e inocente, que por um instante esqueci que aquela garota já havia matado alguém a sangue frio.

Voltei para casa pensando em muitas coisas pelo caminho.

– Está tudo bem, Ty? – Roku me olhava preocupado por eu estar calado.

– Roku, é verdade?

– O quê?

– O que falei mais cedo, sobre ser escravo...

– Sim. Eu nasci em uma tribo em meio a floresta, diziam que eu era a encarnação do deus lobo, Fafnir, e me treinaram desde cedo para me tornar o líder da tribo. Quando eu tinha sete anos, minha tribo foi atacada e destruída, quase todos foram mortos. Aqueles que sobreviveram foram capturados e feitos de escravos. Vivi até os 15 aos como escravo, até que mataram meu melhor amigo, um lobo que rodeava a vila em que eu servia. Em fúria, matei a vila inteira. Homens, mulheres, crianças e velhos. Todos. Mas eu não lembro de como o fiz, é como se eu tivesse adormecido e acordado quando já havia terminado, com um monte de corpos ao meu redor e banhado de sangue. Desde então comecei a atacar vilas e cidades, libertando os escravos. Aos 20 anos eu tinha quase um exército, sendo temido por todos os escravistas. Eu era um assassino, era o meu talento. Mas aos 24, fui morto por ter sido ambicioso. Ataquei a capital imperial e matei o imperador, mas seu filho, um jovem que tinha a minha idade, apareceu na hora… – ele deu uma pausa, como se relatasse em contar algo – Eu estava cansado por ter lutado o caminho todo até o palácio, então perdi. O jovem era habilidoso também. – ele olhou para mim e sorriu – Ao menos acabei com a escravatura, já que hoje em dia todo mundo é livre.

– Roku...

– Hum?

– Perdão.

Ele pousou a mão em meu ombro.

– Não se preocupe, Ty. Como você disse mais cedo, somos amigos. Devemos sempre perdoar um ao outro, já que não somos perfeitos.

– Roku… – Me senti mal por ter o feito lembrar de seu passado obscuro.

– Vamos acelerar o passo que estou cansado.

– Espírito que sangra, come e dorme. Estranho.

– Eu nunca tive nada disso depois de morto, até ficar preso a você. Não reclama porque a culpa é sua.

– Culpado. – Falei ao dar de ombros. Nos olhamos por um momento e começamos a rir.

23:34 h.

Eu estava deitado na cama, no escuro, fitando o teto que era iluminado pela luz da lua que entrava pela janela, pensando em quem deveria ser aquele homem que estava me encarando na praça e o que Yuen estava planejando. Ao mesmo tempo o rosto de Kiria não saía de minha mente, oscilando entre o belo sorriso de mais cedo e a expressão fria após matar aquela garotinha. Acabei desistindo de pensar sobre tudo ao mesmo tempo e adormeci, pronto para ter um domingo enfurnado em casa.

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