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Esqueceu a Senha?

Capítulos (3 de 23) 21 Nov, 2020

Green: 005

— Ei, seu pamonha, o que está acontecendo?

Eu não me lembro que horas aconteceu, mas aconteceu. Estava acontecendo. Meu mestre, Mena, alguns minutos antes, chamou Kyoko para conversar seriamente. Eu estava ao seu lado, como de costume, então ouvi toda a conversa que acabou se transformando em uma discussão.

Em resumo, meu mestre expulsou a antiga Assassina de Youkais da AAA.

Mas ela se negou a sair, o que acabou gerando uma discussão, saindo de seu cômodo no primeiro andar, e parando no andar térreo.

Mesmo assim, a gritaria atravessava as paredes e chegava até os andares superiores.

E isso acordou Yuna.

Ela saiu de seu quarto e se aproximou de mim, que estava sentado à beira da escada para o andar abaixo. Ela estava usando um conjunto de pijama cor de rosa, e caminhou até mim esfregando um olho com o punho.

Como eu disse, às vezes Yuna conseguia ser um anjinho.

— Vá para cama, guria, não há nada para você aqui.

— Hmm?

Como se o que eu disse não tivesse nenhum valor para ela, Yuna se ajoelhou e inclinou o tronco para frente, se apoiando com as mãos para ficar de quatro. E ela engatinhou, se aproximando mais um pouco, se posicionando em um ponto onde somente seu rosto pudesse ser visto na esquina da escada.

Para que toda essa discrição, eu não sei.

Eu já iria contar para o meu mestre, de qualquer jeito.

— É o Mena que está lá?

Eu a ignorei.

— Ei, seu pamonha, estou falando com você.

— Tsc, já disse para voltar para cama, guria. Me obedeça.

— Hmm, pelo jeito que você está falando, deve ser alguma coisa séria. Vou ficar para ver o que é.

Que péssimo cão de guarda eu sou. Minha missão era despistar qualquer curioso que quisesse saber o que estava acontecendo, mas a primeira pessoa que me aparece tinha de ser justamente a Yuna. Eu não conseguia ser grosso com ela o suficiente para fazê-la voltar para o seu quarto. Toda vez que pensava em algo e me voltava para ela, meus olhos caninos observavam seu rostinho sonolento e então ela notava meu olhar e correspondia com um olhar meigo e fofo.

Ela quem parecia o cãozinho da relação!

— A barulheira acabou... — comentou Yuna.

Talvez por estar pensando em mil maneiras de retirar a guria do corredor, eu não tinha notado quando o barulho da discussão cessou. Droga, isso era ruim. Meu mestre já deveria estar a caminho e...

— Yuna?

Desde quando ele apareceu ali?!

Que silencioso.

— Oh, Mena, você está aí. Me ajude a encontrar meus óculos, deixei cair em algum lugar por aqui.

— Você não usa óculos, Yuna.

— Hã? Claro, eu não uso. — Ela se colocou de pé. — Enfim, acho que não foi aqui que estacionei meu carro...

— Ulim, eu não disse para você despistar qualquer um que tentasse saber o que estava acontecendo?

Automaticamente, meus sentidos caninos começaram a apitar. Seria aquele um dos meus últimos momentos como inugami, e consequentemente shikigami, de Mena Kitsune?

— Hmph, que seja. — Ele deixou passar. — Isso aqui é para você, Yuna. A antiga Assassina de Youkais me mandou entregar.

— Antiga?

Enquanto subia os últimos degraus da escada para o primeiro andar, meu mestre mexeu no bolso traseiro e retirou de lá um guardanapo dobrado e muito bem cuidado. Ele o entregou na mão da guria.

Ela abriu o guardanapo.

E então, sorriu.

— Aproveitando, Yuna, temos uma vaga aberta na Elite. Se ainda estiver interessada.

E nós sabemos o que aconteceu adiante.

Yuna Nate se tornou a nova Assassina de Youkais, após matar sua mãe, Yuki-onna, vingando assim seu falecido pai, Nicolas Nate.

A resposta escrita no guardanapo era: não se preocupe, ela é toda sua.

Até então, aquele pedaço de papel foi o contato mais próximo que as assassinas tiveram.

Até aquela madrugada, em um armazém abandonado.

Após seguir o rastro de cheiro da mulher misteriosa, nós chegamos às portas de um armazém abandonado. E agora, o cheiro da antiga Assassina de Youkais formigava em meu focinho. Kyoko estava ali dentro.

— Parece que encontramos, guria.

— É, parece que sim. Será que devemos entrar sem bater?

— As portas não parecem estarem fechadas.

— Hmm, então é só empurrar.

E foi o que fiz. Com minha cabeça empurrei uma das portas, o suficiente para que eu pudesse passar com a guria nas costas.

Nós adentramos o armazém.

Luzes alaranjadas acenderam sozinhas, o que nos permitiu enxergar o que havia ao nosso redor.

E, metros à nossa frente, lá estava ela. Kyoko, a antiga Assassina de Youkais.

— Ah, vocês me encontraram rápido, meus consagrados.

Com certeza era ela. Os olhos cinzas como um céu de tempestade. Os cabelos curtos na altura das bochechas. Diferente de como se apresentou no estacionamento, suas roupas eram bem casuais, consistindo em um short jeans curto e uma camiseta branca. Ela era magra, e não muito mais alta do que Yuna, só que não tinha peito e quadril como ela, além de não ter as pernas e braços tão fortes. Afinal, Kyoko não era uma hanyou. Apesar de suas habilidades e resistência, ela era uma humana normal. Ou melhor, uma humana anormal.

Em volta da antiga Assassina de Youkais, estavam seus pertences. Em um cabide, a capa escura, o chapéu e a máscara de sua personalidade especialista em artes marciais. Atrás de Kyoko, uma mesa de ferro, com diversos tipos de armamento bélico sobre ela. E, recostada à uma perna da mesma mesa, uma longa katana cinza, como se fosse uma escultura de metal. Aquela não era Ryuko, a espada que ela usava na época em que trabalha para a AAA.

Eu farejei o ar, para saber o material.

Não me surpreendi ao descobrir que era adamantina.

— Há quanto tempo, guria.

— É, meu consagrado Ulim, há quanto tempo.

O clima ali era estranho, o que automaticamente me colocou em modo de defesa, que também era o meu modo de ataque.

Então, Yuna desceu de minhas costas. Ela começou a dar passos na direção de Kyoko, mas parou, em uma distância entre mim e a antiga Assassina. Suas mãos se posicionaram em sua cintura.

— Obrigada. — Ela agradeceu?

— Hã, está me agradecendo pelo o quê, Assassina de Youkais?

— Você deixou a Mulher da Neve viva. Você recusou a ordem de assassinato que a Associação lhe passou e por isso foi expulsa. A ordem de assassinato era referente a Yuki-onna, a Mulher da Neve. Mas você recusou, porque eu lhe pedi, naquele guardanapo. Sendo assim, eu só tenho a lhe agradecer, Kyoko.

Claro, então foi por isso. Logo quando Kyoko foi exilada, Yuna foi enviada para sua ordem de assassinato atrás de sua mãe. Uma prova final, para que a guria pudesse subir à Elite como a Assassina de Youkais. Mas, como a guria sabia o motivo da expulsão de Kyoko, e eu não?

Vai entrar para minha futura investigação.

— Hmph... — Ao agradecimento de Yuna, a antiga Assassina de Youkais fechou os olhos e sorriu. — Muito de nada. Mas se você veio aqui só para me agradecer, não precisava ter vindo.

— Claro que não! — A guria bateu no peito com um punho cerrado, e depois, com o mesmo punho, apontou para sua antecessora. — Eu vim socá-la! E chutá-la pelo o que fez com o meu cachorro! Então, se prepare!

Por que ela falou de um jeito tão heroico? Se o que ela queria era intimidar Kyoko, com certeza não deu certo.

— É sobre vingança, pelo visto. E você quer resolver isso de maneira violenta. Eu só estou confusa em um ponto: o que exatamente eu fiz contra o Ulim?

— Hã? Não se faça de desentendida. Você sabe muito bem que disparou contra nós em Akihabara, na tentativa de matar o meu neném.

Não diga “o meu neném” em uma situação como esta!

— Ou vai me dizer que não se lembra, Kyoko?

— Eu não me lembro.

— Quê?! Sério?!

A antiga Assassina disse de modo tão seco e sem vida, que a guria não pôde desacreditar nela. Ela só conseguiu reagir questionando a seriedade de sua resposta, e dando um passo para trás, desfazendo sua postura de heroína valente.

Porém, não foi só Yuna que ficou surpresa com a resposta. Eu também reagi de uma forma que demonstrasse minha não espera daquela sinceridade. Eu movi meu focinho de um jeito que não consigo descrever em palavras. Mas, para quem viu, tenho certeza que deixei claro meus sentimentos naquele momento.

— Espere, então você não se lembra do que suas outras personalidades fazem? — Indagou a guria.

— Não. Eu só me lembro do que minha personalidade faz, embora elas conversem uma com a outra.

— Mas, se for assim, por que disse “vocês me encontraram rápido” quando chegamos?

— Porque eu fugi de vocês, no estacionamento. Diferente de minhas outras personalidades, eu não quero fazer mal a nenhum de vocês. Na verdade, quanto mais distante eu ficar de vocês, melhor será para mim. Minhas personalidades entram em ação se alimentando do meu rancor. Meu lado perito em armas tem ódio da AAA, menos de Yuna. É o lado que não aceitou ser expulso por recusar uma ordem de assassinato que poderia ser concluída por outra pessoa. Já o meu lado especializado em artes marciais não aceita ter sido substituído por Yuna, só por não ter aceito uma ordem de assassinato. É um lado que se vê traído e quer provar para si mesmo que é superior a atual Assassina de Youkais, mesmo que isso custe sua própria vida. Na verdade, para esse lado, perder para a atual Assassina de Youkais é uma vergonha que só pode ser apagada com a própria morte.

Hmm, entendi. Como o agente tarado tinha comentado, as personalidades pensam e agem de maneira diferente. Nós deveríamos ter ido além em nossas deduções, antes de partirmos atrás de Kyoko. E agora...

— Estou confusa, sua pamonha. Quer dizer que, quando sua personalidade trocou no estacionamento, era a sua principal que assumiu. Mas, e quanto ao cheiro? Tanto Ulim quanto eu temos seu cheiro gravados em nossas mentes.

— Cheiro? Ah, deve estar falando da camuflagem mística da capa de meu lado artista marcial. Bem, essa capa não só cobre todo meu corpo como troca totalmente o meu odor natural. É uma magia de alto nível feita por um dos magos da organização em trabalhei após a AAA, e parece ser bastante efetiva, já que até Ulim não conseguiu me detectar.

— Organização, é? Você quer dizer o NIP.

— Então você conhece, minha consagrada Yuna?

— E não tenho nenhuma boa impressão.

Não era assunto nosso, da AAA, mas essa organização, NIP, estava começando a tomar alguns holofotes para si. Desde que a guria saiu em missão com o agente da Mythpool, essa organização vem sendo bem ativa ao redor de Yuna e, consequentemente, da Associação. Poderia ser um problema. Eles já demonstraram não estarem de brincadeira.

— Afinal — continuou a guria —, qual o intuito dessa organização?

— Sinceramente, eu não sei. Eu só trabalhava para eles por necessidade e pelo dinheiro, claro. Eles me apontavam o alvo e eu o matava, simples assim. Suponho que seja da mesma forma com você, minha consagrada Yuna, agora que é a lendária Assassina de Youkais.

— Tsc, lendária?

— Isso. Você ficou bem famosa durante esse seu início na Elite. Vídeos e imagens na Deep Web geram especulações de quem ou o que é essa Assassina de Youkais. Para os humanos, você se tornou uma lenda urbana. Não demorou muito para que seu nome chegasse à alta-sociedade, não é?

— Eu não sei o quer dizer com alta-sociedade, mas não ganhei muito seguidores no Instagram desde que me tornei a Assassina de Youkais. E ninguém famoso me seguiu, também. A única coisa que ganhei, além do aumento de salário, foi um detetive stalker e umas fotos na capa da revista VILLAiNS.

— Talvez um dia entenderá, minha consagrada.

— ...

— Bem, eu vou indo. Foi bom rever vocês.

— Hã, para onde você vai?

— Vou embora. Como disse, minhas personalidades entram em ação se alimentando do meu rancor. Quanto mais distante eu estiver da AAA e de vocês, melhor será para mim. No início, pensei que fosse o suficiente mudar aqui para Tóquio, mas parece que isso só aumentou o tempo de pausa entre uma troca e outra. Piorou mesmo quando você caiu na armadilha do meu lado artista marcial.

— Hmph, deve ter algum erro aí, eu não caio em armadilhas. — Disse Yuna, orgulhosamente.

— Mas não há erro. Como você acha que foram encontrados naquele estacionamento? E como você acha que minha personalidade atiradora se posicionou no ponto certo para disparar contra vocês? Eu não sou onisciente. Não havia como saber a localização exata de vocês.

A guria levou a mão ao queixo, entrando em profunda meditação.

— Bem, você poderia nos rastrear pelo cheiro, no caso da mulher misteriosa, mas você é humana. E também tem o caso da personalidade atiradora, que precisaria saber a localização prévia para nos pegar no local desejado. Pensando como humana, o jeito mais fácil seria com um rastreador.

— Sim, um rastreador. Foi com isso que minhas personalidades conseguiram localizar você.

— Mas onde?

— No seu relógio.

Se eu acreditasse em destino, diria que essa revelação foi um tanto irônica. Yuna estava provando do próprio remédio, afinal. Assim como ela colocou um rastreador em meu corpo, horas mais cedo, Kyoko utilizou da mesma estratégia, só que antes mesmo da própria guria.

— O plano teve início com minha personalidade mestre em artes marciais. Foi ela quem vendeu o relógio para você na internet. O mesmo relógio já veio com um aplicativo de rastreio que utilizou normalmente, sem desconfiar que também estava sendo monitorada. E como disse, minhas personalidades conversam uma com a outra. Meu lado atirador, que odeia a AAA, assumiu meu corpo e começou a utilizar também o rastreador para seus objetivos. Quando vocês estavam vindo para Akihabara, meu lado atirador estava se preparando para sua execução. Quando ele assumiu meu corpo, você já estava junto de Ulim e ela deduziu isso pela velocidade em que começou a se mover. Era uma oportunidade raríssima de abater o querido shikigami de Mena Kitsune. Cinquenta por cento tática, cinquenta por cento sorte. Depois, a metade mestre em artes marciais retomou o controle e os encontrou naquele estacionamento, usando o mesmo rastreador.

— E como sabe disso tudo, Kyoko? Você disse que não tem memória sobre as ações das suas outras personalidades.

— Sim, e eu não tenho. Tudo o que fiz foi observar o histórico do aplicativo. Como deve saber, ele não marca só o trajeto e localização do rastreado, como também anota tudo sobre quem está rastreando. É um aplicativo bem útil. A Deep Web dificilmente nos desaponta.

Yuna estava incrédula. Ela não estava muito feliz em ter sido vítima de uma jogada que pensou ser de sua autoria.

— Hmm, é, vocês me pegaram.

Admitindo sua derrota no quesito tático, a guria retirou do pulso o seu relógio, e o estendeu na direção da antiga Assassina de Youkais, o segurando com dois dedos pela ponta de sua pulseira.

— Está me dando, minha consagrada Yuna?

— Devolvendo.

— Não se preocupe, nunca foi meu.

— Hmph, então não é de ninguém. — Com elegância, a guria soltou o objeto contra o chão e em seguida o esmagou com uma pisada, despedaçando-o por completo. — Sempre quis quebrar algo caro assim.

— Você não poderia ter só desinstalado o aplicativo?

— Acha que vou continuar caindo nos seus truques sujos, querida antecessora? Sei muito bem que aquele aplicativo era programado como o Baidu. Portanto, o único jeito seria dar um fim ao relógio. Agora, estou atenta quanto a você! Se prepare para receber a justiça pelo o que fez com meu cachorro!

Por que ela voltou a falar heroicamente?! Ainda tinha a intenção de lutar contra ela?!

A guria parecia estar ardendo em chamas de adrenalina.

Já estava até pensando como Jonh Wick.

— Eu já disse que não tenho nada contra vocês, meus consagrados. Estou tentando livrar vocês delas. Meu único objetivo aqui é me afastar. Pretendo mudar de país, mas ainda não sei qual escolher.

— Desculpe, Kyoko, mas não posso deixar que vá, simplesmente. Esse final é anticlímax demais. Você não pode dar as costas e fugir. Mesmo você não tendo controle sobre suas outras personalidades, não posso simplesmente ignorar o que aconteceu com Ulim. Suas personalidades são partes de você, e desse modo, você também tem culpa pelo o que elas fazem.

— Guria, está tudo bem. Deixe-a ir. Ela também não quer que suas personalidades causem mais problemas.

— Mas, seu pamonha! — Ela me olhou por cima do ombro. — Ela não pode sair da loja sem pagar o que consumiu! E todo meu trabalho para tratar de seu ferimento, hein? Você correu um risco grave por conta da bala mística de adamantina!

Hmm, vendo pelo lado do risco que corri, a cobrança da guria para com a antiga Assassina de Youkais poderia ser justificada. Entretanto, a questão da tripla personalidade de Kyoko deixava todo o julgamento mais complicado. Do meu ponto de vista, por não ser a mesma personalidade que disparou contra nós, à nossa frente, eu não pensava ser correto puni-la por uma atitude em que ela não teve consciência. Por outro lado, a guria observou um ponto intrigante, que não me fez mudar de ideia, mas conseguiu me fazer repensar. As três personalidades de Kyoko são parte e um todo. A maldição que ela recebeu não adicionou duas novas personalidades em sua mente, e sim, dividiu sua personalidade em três partes iguais. Em outras palavras, no fundo, Kyoko odeia tanto a AAA quanto Yuna Nate; ao mesmo tempo, ela tenta ignorar os seus sentimentos de fúria, e prefere fugir de seu passado.

Antes mesmo de ser amaldiçoada, a antiga Assassina de Youkais já sofria com as nuances de sua dicotomia.

Se suas personalidades se unissem novamente em uma só, é bem provável que Kyoko tentasse nos enfrentar, mesmo em clara desvantagem numérica, e usando de todos os recursos disponíveis a ela.

Bem, de qualquer jeito...

— Deixe-a, guria.

E ela me ignorou. O par de safiras que me olhava por cima do ombro, voltou a encarar a antiga Assassina de Youkais, fugindo de mim como se minha existência tivesse sido apagada de repente.

— Não importa o que o Ulim pensa. — Yuna disse, e uma lança de gelo cresceu em sua mão direita. — Minha personalidade é única, e ela está me dizendo para acertarmos as contas, Kyoko.

A temperatura começou a cair naquele armazém esquecido pela sociedade.

A atual Assassina de Youkais não estava blefando, naquele momento.

Eu deveria ter notado sua seriedade somente pela alteração em seu tom de voz.

— Guria — rosnei —, não há necessidade disso. Ela é humana, afinal. Se você a enfrentar seriamente, usando seus poderes, não preciso detalhar o que irá acontecer com Kyoko.

— Tsc...

A situação estava saindo de meu controle. A queda de temperatura estava começando a me afetar. Se continuasse daquele jeito, eu seria obrigado a atacar a guria, antes que ela deixasse seu racional ser engolido pelo instinto youkai.

Afinal, por que Yuna estava perdendo a paciência daquela maneira?

Foi até que repentino.

Ela chegou agradecendo por Kyoko ter se negado enfrentar Yuki-onna e estava agindo como uma heroína da justiça quando, de súbito, começou a levar muito a sério esse encontro com sua antecessora. Ela virou a mesa e jogou tudo para o lado pessoal.

Ei, espere, que cheiro é esse?

É diferente, novo... de onde está vindo?

Hmm? Esse odor ácido de mana está emanando da regata da guria. Ela não a comprou junto com o relógio? Será que...?

Aquele agente foi mais útil do que eu pensava.

— Guria! Tire a regata!

— Hã?! — Meu alerta a fez olhar sobre o ombro novamente. — Olhe o que está me pedindo, seu pamonha!

— Tsc...

Quase como uma assombração, a antiga Assassina de Youkais se moveu, apanhando sua espada recostada à mesa, e avançando na direção de Yuna. Ela foi bastante veloz e a distância era curta. Para a atual Assassina de Youkais, que havia se desconcentrado com meu alerta, ser golpeada pela lâmina de Kyoko não seria muito difícil. Porém, não era para ela que aquela investida estava reservada. A antiga Assassina de Youkais passou pela guria mais rápido que o vento, e movimentou seu braço para desferir seu golpe letal contra mim.

Com minha perna em recuperação, e ainda com um pouco do cansaço acumulado, não seria possível colocar minha existência acima da velocidade do som. E, somente com minha agilidade atual, não conseguiria me safar da katana de adamantina.

Era para ser o meu fim.

Mas, não é um líder de alcateia quem está contando essa história a vocês?

Era como se Kyoko já soubesse.

Bem, ela tinha escutado. Ela ouviu falar da lenda da Assassina de Youkais.

Poderes congelantes; um par de olhos azul-escuros e um gorro cinza sobre a cabeça.

Talvez fosse por isso que a antiga Assassina de Youkais sorriu ao ver uma lança de gelo atravessando seu coração das costas para o seu peito.

— Muito bem, minha consagrada Yuna, entendeu rápido.

— Hmph, eu já sabia. A maldição só pode ser quebrada ao ver o motivo de sua fúria morrer diante de seus olhos. O seu plano foi engenhoso, mulher misteriosa.

Às palavras de Yuna, me senti surpreso, e minhas patas me moveram cambaleante para trás. Pelo o que entendi, a personalidade de Kyoko se alterou, mais uma vez. Ou melhor, pela última vez. Aquela que tentou tomar minha vida era...

— Kyoko.

— Hã?

— Suas personalidades voltaram a ser uma só, estou certa?

— Tsc... quando percebeu?

— Não percebi, foi só dedução. Pelo o que parece existia uma outra forma de se livrar da maldição, simplesmente passando-a para outro alguém. Seja lá quando descobriu isso, sua personalidade que queria me vencer ou morrer tentando, armou essa armadilha para mim, criando um jeito de passar a maldição para mim, o que me obrigaria a matá-la para me livrar dela. Contudo, a maldição se alimenta de rancor, então você precisava me dar um motivo para me enfurecer com você. Foi aí que entrou sua personalidade atiradora, cujo objetivo era derrubar a AAA, atirou em Ulim, e acabou unindo o útil ao agradável. Se você acredita na sorte, agradeça a ela, pois ela foi crucial para que seu plano desse certo. O desafio da mulher misteriosa foi justo. Provavelmente ali seria o momento de ascender o meu rancor para que a maldição nesta regata começasse a fazer efeito. Porém, como viu o estado de Ulim, não precisou agir para que isso acontecesse. Você mentiu sobre o franco-atirador e só contou com que eu te matasse durante o combate. No entanto, ainda havia a personalidade principal. Ela interferiu e fugiu. E isso porque essa personalidade deseja viver e se afastar. Só que, ao mesmo tempo que desejava se afastar, também desejava se livrar da maldição. Sua personalidade principal, mesmo sendo só uma parte de três, conseguiu entrar em conflito sozinha. Depois de estudar o que estava acontecendo, só precisou esperar até que a maldição se alimentasse do meu rancor. Quando chegamos aqui, você fez minha paciência esgotar, para que esta regata fizesse seu trabalho sujo e você, enfim, se libertasse. E quando suas personalidades voltaram a ser uma só, seus conflitos internos voltaram ao mesmo tempo. Por isso atacou Ulim com sua espada e não com uma arma de fogo, e também por isso se moveu rápida como uma mestra em artes marciais. Aí estão, misturadas, três atitudes de suas personalidades separadas. Para confirmar minha teoria, você está sorrindo por ter sido vencida pela a atual Assassina de Youkais. Sinceramente, eu não queria te matar. Mas quando Ulim me avisou sobre a regata, as peças se encaixaram e o único jeito seria matá-la diante de meus olhos. Sendo assim, de certa forma, você também venceu. Ou melhor, nós duas perdemos, portanto, empatamos. Caso encerrado.

E a guria bateu a poeira das mãos.

Convenhamos, a miserável é um gênio.

A lança que atravessava o coração de Kyoko, se desfez em neve, e o corpo da antiga Assassina de Youkais desabou para frente, caindo sem um resquício de vida no solo gélido daquele armazém. 

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