Bem-vindo

Venha e junte-se a nós

  • Simples para publicar
  • Rápido feedback
  • Compartilhe com o mundo
/

Ou logue usando:

Esqueceu a Senha?

Capítulos (3 de 23) 21 Nov, 2020

Green: 003

Yuna sempre foi um prodígio em termos de assassinato sobrenatural. Desde que meu mestre a encontrou, ele afirmou que a guria tinha um potencial incrível e assustador, que poderia tender para o lado do controle ou do descontrole. Em outras palavras, ele quis dizer que a atual Assassina de Youkais poderia evoluir de maneira brilhante, mas que poderia perder o controle de suas habilidades e se tornar uma máquina de matar. Ela era naturalmente selvagem, afinal. Além de nascer do cruzamento de uma youkai e um soldado americano, Yuna viveu por alguns anos com não se sabe quem, vagando Japão à fora. Esses fatos somados levaram a meu mestre fazer escolhas minuciosas no treinamento da guria, sabendo que a mesma detinha um forte desejo negativo em relação a raça youkai, e principalmente à sua própria mãe.

Dentre suas decisões para lapidar o disforme talento da Assassina de Youkais, meu mestre a colocou para treinar com Tetsu Tetsuya, o Assassino Intocável. E, à primeira vista, eu sei, pode parecer uma péssima escolha deixá-la para ser doutrinada por um poço de arrogância e prepotência como ele. Porém, a ideia de deixar Yuna conviver com alguém mais selvagem que ela, parecia ser boa. Tetsu, além de ser um exímio artista marcial e uma lenda do assassinato, era alguém que tinha um autocontrole excepcional.

O Assassino Intocável ensinou para a guria muito do que ela sabe sobre artes marciais, já que o aprimoramento de seus poderes ficou à cargo de meu mestre.

Depois de um tempo, os dois acabaram se envolvendo mais profundamente.

Se tornaram dois coelhos.

Mas isso não vem ao caso.

O importante aqui é o que importa. As habilidades assombrosas de Yuna em relação as artes marciais. Especialista em kung fu; karatê; wing chun; ba ji quan; judô; e capoeira. Ela não só era muito boa em todas, como também conseguia mesclá-las e alterná-las em uma velocidade impressionante. Ela não se prendia a um estilo, ela criava um novo.

Quando você coloca a água em um copo, ela se torna o copo. O mesmo acontecia quando se colocava Yuna em uma situação.

Aquela circunstância no estacionamento não era nada de aterrorizante para a Assassina de Youkais.

Poucas coisas eram.

O combate demorou um pouco para ter início. As combatentes precisavam demarcar a arena. Então, Yuna criou um novo clone, pedindo para que esse fosse comprar tinta spray na loja de conveniência mais próxima.

— Traga tinta vermelha, ouviu? Vermelha. E tome cuidado com o franco-atirador. Verifique se não está sendo observado.

— Certo, mestra.

Nos minutos entre a ida e a volta do clone da guria, ela congelou minha perna ferida, que ainda estava em tratamento, para que eu pudesse me sentar ou ficar de pé. Funcionou bem como um gesso, e foi útil para que eu pudesse assistir a luta de um melhor ponto.

— Perdão, Assassina de Youkais, mas você disse franco-atirador para seu clone?

— Ah, sim. Há um franco-atirador à solta em Akihabara. Inclusive, é o motivo por estarmos aqui.

— Você fugiu de um mero franco-atirador?

— Ei, não. Eu não fugi, foi uma retirada estratégica.

— Claro. Acredito que por conta do ferimento em seu cachorro.

— Exato.

— Guria, não deveria ficar passando informações abertamente...

— Relaxa, seu pamonha. No caso do atirador, ela é vítima como nós. — Ela respondeu mais baixo para mim, e depois voltou ao tom normal para se dirigir à mulher misteriosa. — Escuta, ô do chapéu, você não sabe de nada sobre esse atirador?

— Bem, não escutei nada pelo caminho. Estou sabendo agora por vocês.

— Hmm, entendo.

Após esse diálogo amigo entre as duas rivais, se é que posso latir dessa forma, o som da porta do estacionamento ecoou por todo o silencioso andar.

Era o clone de Yuna e...

— Por que você está todo sujo de tinta?

Da cabeça aos pés, o sósia da guria estava com diversas manchas de tinta, em diversos pontos de seu corpo, e em diversos tipos de cores, parecendo marcas de diversas explosões. Em sua mão direita, uma lata de tinta spray.

Tinta spray azul.

— Mestra, eu posso explicar...

— Oh, eu creio que sim. — Ela cruzou os braços, entrando em seu modo de julgamento.

— É... certo. Então, mestra, eu fui até a loja de conveniência e fui sorrateira, para que ninguém me percebesse tanto na ida como na volta. Até aí tudo bem, até aí tudo normal. No entanto, quando cheguei na loja, entrei e me dirigi ao corredor com as tintas spray e... — o clone fez uma pausa dramática. — E havia uma mulher lá.

Yuna não esboçou nenhuma reação até ali, deixando claro que era para seu clone continuar com o relatório.

— Então, mestra, eu fui apanhar a tinta vermelha, como me pediu. Mas a mulher se moveu e apanhou um pouco antes. Era a última lata de tinta, mestra. Não pude deixar aquilo barato, e aí eu fiz assim e depois com chute assim, só que ela era dura na queda, parecia ter saído de um mangá de comédia. Por fim, mestra, sujamos todo o local e a tinta vermelha acabou esgotando. Só sobrou essa cor, azul. M-Mas veja pelo lado bom, é a cor de seus olhos, mestra.

— Castigo.

— Mas, mestra!

— Sem “mas”. Aproveite que está com a tinta em mãos e desenhe nossa arena, será o suficiente para pagar seus pecados.

— Mas... está bem, mestra — e o clone baixou a cabeça e obedeceu.

Enfim, sem demorar muito para demarcar a arena, o clone se desfez em neve.

Estava na hora daquelas duas resolverem suas diferenças.

Cada uma tomou sua posição dentro das quatro linhas azuis. Um espaço de vinte e cinco metros quadrados, demarcados com algo bem próximo da perfeição pelo clone da guria.

Separadas por apenas oito metros de distância, as duas ficaram frente a frente ao centro do ringue. Os olhos de ambas estavam fixos uns nos outros. Um par de safiras contra um par de nuvens chuvosas. Que tipo de química isso tinha? Meus olhos caninos estavam prestes a descobrir.

A mulher misteriosa deslizou os pés no piso branco do estacionamento, levando seu corpo a tomar sua posição de combate. Claramente, karatê, estilo shotokan.

Yuna, por sua vez, moveu as pernas de maneira suave, pressionando a sola de seus tênis contra o solo branco. Ela aderiu a uma opção diferente de arte marcial, o kung fu, se posicionando no estilo do tigre.

Ao lado de fora da arena, também alinhado ao centro, só que com uma visão horizontal do conflito, eu estava sentado como uma espécie de juiz daquele combate informal. E desse modo, eu quem tive de latir para dar início à partida.

E eu lati.

Ao som que emergiu das profundezas de minha garganta, quem tomou a iniciativa foi a mulher misteriosa. Ela avançou em linha reta. Os passos rápidos como os de um experiente ninja. Com aquela rapidez, os oito metros de distância até a Assassina de Youkais, foram cortados pela metade. Todavia, aquele nível de agilidade não era algo que surpreenderia a guria do outro lado da investida.

Na fração de tempo entre a misteriosa mulher desferir seu golpe, e chegar perto o suficiente para isso, os lábios rosados de Yuna se curvaram em um pequeno sorriso. E então, o soco veio. A mulher disparou seu punho, firme como uma rocha, em um movimento seco contra o tórax da guria. Porém, ela não contava com sua astucia. A Assassina de Youkais já havia se antecipado a isso.

Com a maior naturalidade, Yuna deu um pequeno passo para a sua esquerda, virando suas costas para a mesma direção. Assim, ela se safou do potente soco, que prometia estraçalhar seu tórax. Mas, não somente por isso a guria fez aquele movimento. O braço da mulher misteriosa continuava estendido em seu golpe. A isso, a Assassina de Youkais apoiou aquele braço perto do pulso, com a mão direita aberta, como se equilibrasse uma bandeja e, dessa maneira, conduzindo o movimento daquele soco a continuar. Ao mesmo tempo, o corpo de Yuna continuou a virar para esquerda, passando aos poucos para trás da mulher misteriosa. Graças a influência da palma da guria, a mulher teve de dar um passo a mais do que o planejado. E nisso, revelou suas costas desprotegidas para a Assassina de Youkais, cujo braço esquerdo já estava em movimento para acertar o centro de sua coluna, também com a palma da mão, e empurrá-la de uma vez para fora das quatro linhas azuis.

Para fora da arena.

No entanto.

A mulher misteriosa se manteve firme e forte, sem cair para fora do espaço demarcado.

Ela foi empurrada com força por Yuna, mas reagiu rápida à situação. Os pés descalços a giraram e a pararam abruptamente com suas forças. Um dos pés estava acima da linha azul, indicando o por quão pouco ela ainda estava em combate.

Do lado oposto, poucos metros à sua frente, a guria executava movimentos fluídos e contemplativos de tai chi chuan. Ela tomou uma posição peculiar, dobrando uma perna e virando o corpo um pouco para direita. Não, não era meramente uma posição. A Assassina de Youkais tinha acabado de preparar seu segundo golpe. Ela esticou a perna dobrada, chutando o vácuo na direção da mulher misteriosa. E, embora pareça um movimento simples, somente o esticar de sua perna foi o suficiente para lançar uma estrondosa rajada de ar contra a mulher com um pé sobre o limite da arena. Aquela ventania concentrada seria capaz de retirar duzentos quilos do chão, sem esforço. Com certeza aquela mulher não pesava nem a metade disso.

De todo modo, o golpe de ar não apanhou a mulher. Assim que Yuna desferiu seu chute, ela saltou para o lado, desviando da avassaladora ventania. O contra-ataque aconteceu em seguida, ao que as solas de seus pés sentiram o piso frio do estacionamento. Ágil demais para uma humana comum, a mulher avançou uma segunda vez. E a guria ajeitou sua pose, agora trocando a arte marcial para o wing chun.

Diferente do primeiro ataque, a velocidade dos punhos da misteriosa mulher aumentou. Ela encaixou uma sequência de socos rápidos, que foram bloqueados pela defesa escorregadia da arte marcial wing chun. Contudo, a destreza com que os golpes foram desferidos foi tamanha, que a Assassina de Youkais foi obrigada a dar dois passos para trás. Aquela humana de chapéu esquisito fez com que a guria deixasse de respirar por alguns instantes.

Agora, assim que tomou sua pequena distância da mulher misteriosa, Yuna novamente trocou sua arte marcial, voltando para o bom e velho kung fu, mas aderindo ao estilo da garça.

E a mulher misteriosa não cessou sua ofensiva. Aproximou-se com os dois passos que faltavam e, sem gentileza, lançou mais três socos contra a Assassina de Youkais. Mas, a guria já havia acompanhado esse ritmo. Para uma mente talentosa como a dela, aparar os três golpes não teve nenhuma complicação. Primeiro, segundo, terceiro, era o momento para a contramedida. No estilo da garça, Yuna acertou o primeiro golpe com as costas do punho esquerdo na região labial da mulher. O segundo foi logo após, mais rápido que um piscar de olhos, as costas do punho direito se moveram de dentro para fora, pincelando a mandíbula coberta pela máscara da mulher misteriosa.

Todavia, a mascarada não deixou barato. Reagindo assombrosamente rápida, ela disparou mais dois socos, tão velozes quanto sua reação. E...

Quando a guria voltou para o wing chun?!

A Assassina de Youkais bloqueou os dois socos, superando em velocidade a reação de sua oponente. Ao mesmo tempo que executou sua defesa com maestria, ela invadiu a guarda aberta da mulher misteriosa. No instante seguinte, a guria desferiu a sequência de socos wing chun. Uma série de socos rápidos, executados em um movimento rotativo com os punhos, acertando especialmente o centro do tórax.

Ao golpe, a mulher misteriosa ficou sem ar, o buscando com força.

Praticamente no mesmo momento, uma das mãos de Yuna moveu-se com incrível agilidade, puxando a aba do chapéu sobre a cabeça da mulher, o fazendo cair à frente de seu rosto e tapando sua visão por uma fração de segundo. Quando o chapéu foi sorvido pela gravidade, deixando que os olhos cinzas enxergassem o que estava adiante, a guria já havia desaparecido. Ou melhor, trocado de lugar.

A Assassina de Youkais estava às costas da mulher misteriosa.

Sua mão direita esticada, apontando para o meio de sua coluna como se fosse a lâmina de uma espada, em uma forma peculiar de ultimato.

Os dedos de Yuna não estavam a mais de três centímetros das costas da mulher, mas não chegavam a tocá-la. No entanto, a misteriosa mulher conseguia sentir a presença da guria pairando atrás dela. Ela sabia que a Assassina de Youkais estava às suas costas, e não ousou mover um músculo em uma não recomendável jogada de sorte.

É plausível dizer que Yuna Nate é muitas vezes antagonista da sorte de suas vítimas.

Não é uma boa ideia contar com o erro daquela guria, e a mulher parecia saber disso.

Ela parecia saber que estava em xeque, e que qualquer movimento errado a levaria para o xeque-mate.

A cena lembrava a de um assalto à mão armada, onde Yuna era a assaltante e a mulher a vítima.

Hmm, observando agora, com meus olhos caninos, aquele rosto sem o chapéu, minha mente acabou puxando uma memória não muito profunda ou distante. Aqueles olhos cinzas, como nuvens de tempestade, não me eram estranhos. E aquele corte de cabelo curto, na altura das bochechas, eu também já havia visto em algum lugar.

Com aquela máscara ainda no rosto, ela parecia bastante com um garoto. Ainda mais com aquela capa que cobria praticamente todos os seus traços femininos. Mas, os pés expostos, eram bonitos e delicados como os de uma princesa. Era até difícil acreditar que eles faziam todos aqueles movimentos ágeis.

— Hmph.

Yuna cerrou seu punho. O Soco de Uma Polegada foi aplicado ao centro das costas da mulher misteriosa. O corpo todo da mulher tremeu com a energia que atravessou seus ossos e carne. Um impacto firme como uma rocha. E um disparo de pressão à queima-roupa.

Por fora, nenhum dano era visível.

Porém, por dentro, o estrago deve ter sido grotesco.

Por ser uma humana, me surpreendia que ela estivesse viva.

A misteriosa mulher caiu de joelhos. Depois, seu tronco desabou para frente, a forçando a apoiar seu corpo com as mãos.

— Você tem fibra, ô do chapéu, eu reconheço isso. — A guria disse, a olhando de cima para baixo, como uma deusa observando um mortal desamparado. — Geralmente, contra um humano comum, meu Soco de Uma Polegada seria o suficiente para matá-lo, principalmente no local onde foi aplicado. Entretanto, você, mesmo sendo humana, acabou só caindo de joelhos. Meus parabéns.

— Isto ainda não terminou, Assassina de Youkais.

— Era esse o clichê que eu estava esperando.

Aparentemente, o combate iria ter um segundo round.

Yuna deu quatro longos passos para trás, criando uma nova distância de sua adversária. Ela se posicionou novamente no estilo do tigre, do kung fu. Seus olhos azul-escuros observavam tranquilamente a mulher misteriosa, enquanto aguardavam para que a mesma se colocasse de pé, em posição de combate.

E foi o que aconteceu.

A misteriosa mulher apanhou seu chapéu com uma mão, e começou a se erguer sem pressa. Ela colocou seu chapéu de volta sobre a cabeça, e se virou, encarando uma segunda vez a Assassina de Youkais.

— E aí, o que é que vai ser? — A guria costumava dar o direito de escolha para suas vítimas, para que elas mesmas possam decidir o seu destino. Morra aqui, ou fuja para bem longe. Em alguns casos, Yuna não dava à vítima nem esse direito de “últimas palavras”.

Assim, ignorando a pergunta da guria, a mulher misteriosa relaxou os braços, e partiu para cima da Assassina de Youkais. Ela saltou em um chute parafuso, que passou raspando o vácuo à frente do nariz de Yuna Nate, já que ela deu mais dois passos para trás.

— Desistiu do karatê? — E a guria também trocou a arte marcial, indo do kung fu para a capoeira.

A mulher misteriosa tocou os pés no chão, e rapidamente teve de agir, pois Yuna desferiu um chute martelo sem gentileza nenhuma.

Estaria aquele embate se tornando, de alguma forma, pessoal para a Assassina de Youkais?

Não que ela não estivesse lutando seriamente. Ela só não estava lutando para matar. Se fosse o caso, Yuna não teria só utilizado o soco de uma polegada quando pegou a mulher pelas costas. Ela teria usado sua vantagem física e quebraria o pescoço de sua oponente com um golpe de karatê, ou algo tão efetivo quanto.

Mas, dentro das regras que ela estipulou para si mesma, a guria parecia estar levando o confronto para um novo nível de violência.

Ela começou a usar seus golpes de maneira letal.

Após o chute martelo, que a mulher misteriosa se esquivou inclinando o torso para trás, Yuna acorrentou seu golpe com um giro, e saltou à média-altura em uma voadora de dois pés que acertou em cheio o peito de sua adversária.

A mulher não foi lançada para fora da arena, mas a pressão do impacto que ela recebeu foi o suficiente para fazê-la deslizar alguns metros para trás no piso.

Já a guria caiu de costas no chão, logo se levantando com um salto. Ela trocou mais uma vez a arte marcial, indo da capoeira para o karatê, também no estilo shotokan. A misteriosa mulher fez o mesmo, voltando para a sua postura inicial.

Com as duas usando o mesmo estilo de luta, as condições do combate iriam ficar de igual para igual.

Só a melhor sairia vitoriosa.

Porém, elas não se acomodaram muito ao estilo.

Usando de capacidades sobrenaturais, ambas se moveram em uma velocidade assombrosa, comparado ao que já fora visto até o momento no combate. Antes de um piscar de olhos acontecer, as duas se encontraram em suas investidas, uma socando o rosto da outra.

Yuna com seu punho direito, lançou seu soco de baixo para cima, acertando o lado esquerdo do lábio inferior da mulher. E sua oponente misteriosa, também com seu punho direito, disparou seu soco de cima para baixo, golpeando a parte superior do maxilar da guria.

Havia energia naqueles punhos.

Eles pressionavam a face uma da outra, disputando para ver quem resistiria por mais tempo.

E então, Yuna revelou sua intenção com aquele soco vindo de baixo. Seu punho, ainda pressionando a região que socara, girou, deslizando no rosto da mulher, e se abriu, simulando as garras de um tigre. Ou, tigresa. E também como uma tigresa, a guria agarrou a máscara que cobria a metade inferior da misteriosa face daquela mulher.

Percebendo o intuito daquele movimento, a mulher misteriosa afastou seu punho do rosto de Yuna, e junto da outra mão livre, agarrou o antebraço da guria, o empurrando para o lado com firmeza. Ao fazer isso, inevitavelmente, sua guarda ficou totalmente aberta. E não seria a Assassina de Youkais que deixaria essa gafe passar despercebida.

O punho esquerdo da guria voou lindamente, direto contra a boca da mulher misteriosa.

A colisão contra seus lábios foi chocante, de modo que o corpo da mulher acabou pareceu perder a firmeza por um instante, já que no seguinte, suas bochechas se estufaram, provavelmente com sangue. E enfim, a potência lançou a mulher para trás, fazendo-a cair de costas no chão. A mancha de sangue ficou visível pela tonalidade avermelhada que a máscara tomou.

— Por que faz questão de utilizar esse chapéu e máscara, hein? — Yuna cruzou os braços. — Francamente, eu já estou começando a ficar cansada deste jogo. Você me aparece aqui, neste estacionamento, no meio da madrugada, e diz que tem contas a acertar comigo. Isso é tudo muito suspeito.

Agora que ela está desconfiada?!

Alguém vestido daquele jeito já não deveria ser motivo de desconfiança à primeira vista?!

— Se está começando a ficar cansada, Assassina de Youkais, lute para me matar e acabe logo com isso.

— Você veio cometer algum tipo de suicídio de luxo, é? Seu desejo sórdido é morrer pelas mãos da lendária e única Assassina de Youkais, é isso o que deseja?

— Você disse... única?

— Sim. E existe alguma outra?

— Se existe...? — A mulher misteriosa começou a se ergueu, vagarosamente. Ela não tomou nenhuma posição de combate, dessa vez. Seus braços estavam soltos e suas pernas não demonstravam tanta firmeza. No entanto, em seus olhos, um brilho assassino emanava de maneira fria. Algo que eu só havia visto em Yuna, e também em...

— Hmph.

A guria reagiu com um ruído ao que já havia sentido anteriormente. À aura assassina que surgiu e se espalhou por todo o estacionamento. Por todo aquele andar subterrâneo, de canto a canto, uma vontade insaciável de matar nos afogou naquele lugar.

— Isso de novo, ô do chapéu. Acho que agora as coisas vão ficar mais interessantes.

— Tsc. — A mulher estava impaciente. Do ferro ao ouro, a misteriosa mulher mudou seu temperamento perante ao comentário da guria. E ela reagiu a isso, além de seu estalo de língua, seus braços se moveram e suas mãos empurraram o vácuo à sua frente, com os dedos indicador e polegar estendidos. Um movimento do kung fu, cujo resultado foi místico.

Uma ventania concentrada, assim como no chute que a guria desferiu no início do combate, foi gerada e lançada contra Yuna, porém mais veloz, como o disparo de uma arma de fogo. E naquela distância curta, contra aquela alta velocidade, nem mesmo a Assassina de Youkais pôde se safar daquele ataque.

A guria foi arrastada pelo golpe de ar.

E parou com os calcanhares sobre a linha azul que demarcava a extremidade da arena.

Yuna, por um momento, desviou o olhar por conta da concentrada ventania, e quando voltou a mirar seus olhos na mulher misteriosa, ela já havia saltado em ataque contra a Assassina de Youkais. Um salto à média-altura.

Nesse momento, em uma situação que a colocava a um passo da derrota, o cérebro da guria agiu da maneira que costumava agir. Preciso e rápido, como uma verdadeira máquina. Yuna deu um pequeno passo para o lado. E durante seu passo, ela trocou sua arte marcial novamente. Ela aderiu ao boxe tailandês. Aderiu ao muay thai.

Quando a mulher misteriosa se aproximou em pleno ar, lançando seu punho em um golpe no estilo do dragão, do kung fu, a Assassina de Youkais se esquivou com seu passo, e no instante seguinte, dobrou sua perna em uma joelhada, desferindo um contragolpe direto no plexo solar de sua adversária.

E a misteriosa mulher praticamente ficou pendurada na perna de Yuna, quase perdendo a consciência.

Nós tínhamos uma vencedora.

A guria apanhou o braço da mulher e a jogou para o lado de fora, além da linha azul no piso frio.

Eu mal sabia que a guria lutava muay thai.

Essa arte marcial não fazia parte do repertório de Tetsu ou de meu mestre. Também não era uma atividade extracurricular da AAA.

Então, onde ela aprendeu? Em uma academia qualquer em Saitama?

Era uma curiosidade para ser sanada depois.

No momento, a guerra ainda estava em andamento, embora a batalha já tivesse sido vencida. A mulher misteriosa notou que estava estatelada ao chão, no lado de fora da arena. Ela olhou para Yuna, de baixo para cima. Olhou direto para seus olhos azul-escuros. Direto para o par de safiras da Assassina de Youkais.

— Entendo... — ela disse. — Agora, eu finalmente entendo. Nossa diferença de força, técnica, é muito grande.

— Não. A diferença está aqui. — Yuna bateu com um dedo em sua têmpora. — Eu sou mais inteligente. Em outras palavras, eu cometi menos erros e me aproveitei dos seus. Assim, eu saí vitoriosa. A moral da história para você, é que força não vence inteligência. Deveria levar isso para o resto de sua vida. Afinal, eu deixei você viver.

— Tsc, sua benevolência me irrita. Você é uma assassina. Uma assassina da Elite. Tirar a vida daqueles que entram em seu caminho, é a única coisa que você deveria fazer.

— É, eu sou uma assassina, sim, mas não é com os humanos o meu problema. Como sabe, eu sou a Assassina de Youkais. Pode parecer engraçado, mas o terrorismo não é o meu ponto mais forte. Claro, para certos humanos, eu posso até abrir uma exceção.

— Então, por que não me mata? — A mulher, mais uma vez, começou a se erguer devagar. — Abra essa exceção para mim, Yuna Nate. Você me venceu em condições justas, mas o que eu realmente desejava era um combate até a morte, desde o início.

— Hã? De novo isso? O que é, ô do chapéu, um fetiche esquisito? Por acaso você tem algo como assassinofilia? Eu já disse que não quero tirar sua vida por mero capricho. Sinceramente, você mal chega a ser uma ameaça, mesmo com seu elevado nível de técnica e força. Para todos os efeitos, você não deixa de ser só uma humana por ser mais capacitada ou habilidosa do que o restante.

— Eu não sairei viva deste estacionamento, a menos que você esteja morta. E não pretendo sair viva se eu não conseguir matar você.

— Hmph, como você é pé no saco, mulher. Que obsessão é essa que você tem por mim, hein? Ah, já sei! Você só pode ser lésbica! Se algum dia eu te ignorei ou neguei um beijo em algum evento, peço perdão, eu prefiro beijar rapazes. Mas dependendo de sua beleza, eu posso abrir uma exceção a isso, também.

Ela estava falando como se fosse bissexual.

E ela não era.

Não que eu tenha feito esse tipo de questionamento à guria, mas, para quem se envolveu como se envolveu com o Assassino Intocável, é possível afirmar que ela era puramente heterossexual.

— Eu não sou lésbica, Assassina de Youkais. Você não consegue me levar à sério? Não pode realizar o meu desejo de morrer?

— Não. — Yuna respondeu com frieza. — Por você, no máximo, posso ligar para o esquadrão contra suicídio. Você é só uma mulher com um problema, e acha que essa solução é a sua morte. Esse tipo de fraqueza me irrita. Eu já realizei um embate justo contra você, agora vá para casa. E tome cuidado com o franco-atirador.

— ...

— Ei, você me ouviu?

De súbito, o brilho nos olhos da mulher sumiu. Seu par de nuvens nubladas estavam secos e sem vida, como o de um morto-vivo. Da mesma forma, eles eram vorazes, tomados por um rancor incontrolável.

Ela até parecia ter sido possuída por algo.

Com uma destreza maior do que havia sido demonstrada até o momento, a mulher misteriosa sacou um revólver, que surgiu de dentro da manga de sua capa. E seu braço já se movia para direcionar a mira de sua arma contra a Assassina de Youkais.

No entanto, sua atitude era um blefe.

Não havia munição naquele revólver.

Aquilo foi só para colocar a guria em guarda.

Da manga do braço livre, uma pequena granada de luz caiu, inocentemente. A explosão luminosa cegou por alguns instantes tanto Yuna quanto eu. Por termos uma visão mais aguçada se comparada a dos humanos, uma granada de luz em um espaço fechado e curto, era letal para nossa visão. Contudo, nossos olhos se recuperavam e se adaptavam com maior velocidade, então, não era de todo mal.

Mas, mesmo com nossa vantagem no campo da recuperação, quando voltamos a enxergar com clareza, a misteriosa mulher já havia desaparecido.

E a porta do estacionamento bateu, confirmando o sucesso de sua fuga. 

Compartilhar: