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Esqueceu a Senha?

Capítulos (2 de 23) 21 Nov, 2020

Green: 001

— Está cansado, seu pamonha?

Como uma assombração, Yuna simplesmente estava lá, no local e horário mais aleatório possível. Eu estava com meus sentidos caninos em hibernação e a guria deveria estar em modo furtivo, pois demorou consideravelmente bastante para que eu notasse a presença dela.

O cenário era costumeiro para mim. Minhas patas me levavam de volta para a Associação, após uma missão de vistoria que meu mestre, Mena, me ordenou fazer. Era um pouco mais de meia-noite, ou talvez uma da manhã, e mesmo sendo um líder de alcateia como eu, minhas pálpebras pesavam com o sono.

Latido isso, eu não estava em condições para me mover acima da velocidade do som, naquela madrugada.

No momento, eu estava cruzando o Lago Aya, sobre a Ponte Sakitama, e suas pistas estavam desertas naquele horário. Então, como um cachorro sem dono, eu vagava tranquilo no meio de uma das pistas. Até que...

Eu tive a ligeira sensação de estar sendo observado.

Observado descaradamente e de bem perto.

Àquela sensação, instintivamente, minhas patas pararam.

E eu olhei para o lado.

— Phew...

Lá estava ela, sentada sobre o parapeito entre as pistas. Com tênis brancos de cano médio, seguidos por um par de coxas fortes. Uma regata colorida em branco, vermelho e amarelo, longa como um vestido, cobria seu corpo dos ombros até mais abaixo de seus glúteos. No rosto angelical, os olhos azul-escuros mais bonitos que um inugami já viu. E sobre a cabeça, além do longo cabelo negro como uma cortina de sombras, um já famoso gorro cinza era o destaque.

Ela me perguntou se eu estava cansado, mas não era como se ela esperasse uma resposta para o óbvio.

— Você não estava de castigo, Yuna?

— Estou sob condicional, atualmente. Mas não mude de assunto, Império das Pulgas, eu perguntei se está cansado.

— Você fugiu da AAA de novo, não é?

— Ainda está mudando de assunto?!

— Você quem está mudando de assunto, guria. Você não só está de castigo, como está em dívida para pagar o uniforme que você estragou, lembra?

— Hmph, verdade, você está certo. Cãozinho muito esperto. — Ela moveu as mãos que seguravam no parapeito e cruzou os braços, dizendo o que disse como se eu tivesse feito uma grande descoberta. — A questão do uniforme será resolvida assim que eu começar no emprego em um café que consegui. Unindo isso aos assassinatos terceirizados e aos vídeos eróticos que estou fazendo, logo conseguirei a quantia para pagar minhas dívidas.

— Você está fazendo vídeos eróticos?!

— Brincadeira. — E ela sorriu.

A guria fazia piadas absurdas, às vezes.

— É, sem querer quebrar a quarta parede, Ulim, mas por que das três coisas que citei, a absurda é fazer vídeos eróticos? Não seria o assassinato terceirizado o único trabalho indigno? Ou, por eu ser uma garota, fazer vídeos eróticos seja mais indigno do que assassinar pessoas alheias por dinheiro, para você?

— Quebrou a quarta parede para soltar uma questão tão polemica?!

— É só uma reflexão.

— Hmm, verdade, eu inconscientemente pensei dessa forma. Talvez esteja mergulhando muito no mundo dos homens, acho melhor eu me afastar.

— Eu concordo. — Yuna desceu do parapeito. — É por isso que estou aqui, Império das Pulgas. — Ela começou a caminhar até mim. — Estou aqui para lhe proporcionar uma nova experiência de uma perspectiva feminina. E claro, não há ninguém melhor do que a mais adorável das garotas da ficção moderna para te ajudar com isso.

— Isso o quê?

— Seu machismo.

— Hmph, eu não sou machista, guria. Sou só um inugami que está sendo influenciado pela sociedade nociva ao seu redor. Por ser um lobo, e também um shikigami, posso dizer que sou uma vítima nisso tudo.

— Melhor ainda, seu pamonha. Posso influenciar você do meu jeito.

— Guria, o que você quer, afinal? E mais intrigante do que isso, como me encontrou em um lugar tão aleatório como este?

— Ah... — ela posicionou as mãos na cintura. — Vejo que se surpreendeu com minhas habilidades de caça, não é?

— Nunca. Qual foi o truque que utilizou?

— Está bem, está bem, não precisa ser grosso. — Yuna estendeu o braço esquerdo na direção de meu focinho e cerrou o punho, destacando um relógio quadrado em seu pulso. — Este aqui é o segredo.

— Um relógio de pulso? Sério?

— Não é só um relógio de pulso, seu pamonha. Isto é um smartwatch. Funciona quase como um celular, mas é portátil como um relógio. E neste dispositivo, eu tenho instalado um aplicativo de rastreio de última geração.

— Então...

— Isso mesmo, eu coloquei um pequeno rastreador em você, bem ali, próximo da cauda, onde você não conseguiria tirar com as patas ou dentes. Genial, não?

— Claro que não! É por conta disso que estou com uma coceira tortuosa!

— Hmm, eu calculei que poderia haver um efeito como esse, mas foi tudo pelo bem da ciência, eu juro.

— Esqueça! Só tire isso de mim!

Essa guria quebrava os limites de uma garota abusada comum e até da mais forte.

Agradeço por ela ter retirado o rastreador, sem hesitar.

E ela também coçou a região, para aliviar meu estresse.

— Pronto — disse ela.

— Não faça mais isso — respondi.

A guria assentiu, envergonhada.

— Agora, voltando ao que perguntei anteriormente, o que você quer, afinal?

— Bem, é meio embaraçoso dizer, seu pamonha. É que hoje é o lançamento de um jogo muito legal e que sou muito fã, e eles estão com uma edição de colecionador que só estará disponível hoje e em Akihabara. O estoque está esgotando muito rápido e soube que há uma fila enorme na loja em questão. Como estou guardando dinheiro ao máximo, não posso ir de trem ou ônibus, e mesmo se fosse, demoraria muito. Então, você poderia me levar lá, não é?

— Eu me recuso.

— Ótimo, então vamos... oi? Espera, o que você disse?

— Eu disse que me recuso. Estou com sono e minha mana está baixa. Embora eu possa correr em alta velocidade, não posso ultrapassar o som como geralmente faço. Se eu te levar até Tóquio, ficarei mais cansado e demorará mais para voltarmos.

— Não importa, seu pamonha. Só preciso comprar o jogo. Se for o caso, eu volto com você nas costas, eu sou bem fortinha.

— Eu tenho o tamanho de uma moto, guria. Quer mesmo andar de Tóquio até Saitama com... ei... o que está...?

Sem gentileza, como se eu fosse um grande saco de areia, Yuna colocou os braços sob minha barriga e me ergueu na altura de seu peito. E ainda não satisfeita com sua demonstração de força, ela apoiou meu corpo canino somente nos dedos e, como um levantador olímpico de peso, mas sem transparecer qualquer tipo de sinal de esforço, a guria esticou os braços, me levantando acima de sua cabeça, como se me oferecesse aos deuses. Ela parecia estar bem tranquila comigo sobre as mãos. Sua postura era magnifica.

— Eu poderia te carregar desse jeito por alguns quilômetros até meus braços começarem a cansar, Império das Pulgas.

— Eu não disse que você não é capaz. O que quis dizer é que irá chamar muita atenção. Mais atenção do que já chamamos naturalmente.

— Hmm, tem razão. Mas eu não ligo se estiver com meu jogo novo. Não me importo se aparecer mais um vídeo sobre a Assassina de Youkais na Deep Web. A maioria das pessoas pensa que é montagem.

— Guria.

— Oe?

— Me coloque no chão.

— Ah, foi mal. — E ela levou minhas patas de volta para o solo.

— Agora, vamos para casa. — Eu comecei a caminhar, dando as costas para ela. — Meu mestre e os outros já devem ter notado sua saída. Desta vez vou te acobertar e dizer que pedi para você me encontrar aqui, já que você está com sua liberdade caçada.

— Hã? Seu pamonha, quer dizer que não vai me levar?

— Acertou em cheio.

— Como assim?! Ei! Não vire as costas para mim, Scar!

— O quê? — Eu parei, e olhei por sobre o meu ombro. — Por que me chamou de cicatriz?

— Não chamei de cicatriz, chamei de Scar. Não vá me dizer que não conhece.

— Eu não conheço.

— Quê?! É o antagonista de Rei Leão. Você não assistiu?

— Bem, eu sou um lobo, líder de alcateia.

— E daí?

— Eu só assisti Mogli.

— Ulim, você não teve infância?

— Você tem ciência de que sou um shikigami, não tem? Um espirito invocado para servir, não sabe?

— Mas você não teve infância antes de ser invocado?

— E como é que eu vou saber?!

Eu rosnei.

A guria estava empenhada em não deixar o diálogo morrer.

— Veja, seu pamonha, está aí mais um motivo para irmos até Akihabara. Eu conheço uma clínica especial que fica aberta durante vinte e quatro horas. Lá, eles conseguem ver quem você foi em sua vida passada. É perfeito para você.

Hmm, aquilo poderia ser interessante. Desde que fui invocado como um inugami, é certo afirmar que não sei nada sobre quem fui ou deixei de ser em minha vida passada. Diferente de comprar um jogo idiota, fazer essa viagem espiritual valia o esforço de ir até Tóquio, mesmo com todo o sono pesando sobre meu corpo.

— Realmente, seria uma boa, guria. Mas, isso é verídico? Digo, você já fez alguma consulta?

— Sim, sim — ela assentiu.

— E quem você foi em sua vida passada?

— Odin, O Pai de Todos.

— Sem chance dessa clínica ser verdadeira!

Retornando ao meu propósito raiz, eu apontei meu focinho para frente e voltei a caminhar de volta para a AAA. Porém, como disse, a guria estava empenhada em não deixar o diálogo morrer.

— Está bem, vamos negociar, Império das Pulgas.

— Se quiser negociar comigo, comece por deixar de lado esse apelido tosco e me chame pelo nome.

— Tosco? Mas é o apelido mais fofo de todo Japão.

— Guria, você não chegará muito longe, dessa maneira.

— Certo, entendi, Ulim. Eu sei o que você quer. Sinceramente, estou impressionada. Você me fez chegar a este ponto, onde preciso apelar para isso.

— E o que seria “isso”?

— Se você me levar até Akihabara, quando eu receber meu primeiro salário na cafeteria, eu te levarei para caçar!

— ...

Hmph, de repente, ela começou a falar minha língua.

Minhas quatro patas pararam no asfalto. Minha cauda começou a balançar de um lado para o outro. Eu dei meia-volta com meu corpo e olhei atentamente para os olhos da Assassina de Youkais. Por eu ser um lobo, líder de alcateia, o efeito que aquele par de safiras produzia, não tinha funcionalidade nenhuma em mim. Da mesma forma, não posso negligenciar a beleza daqueles olhos azuis. A beleza ao todo da guria chegava a ser terapêutica.

— Você não está tentando me enganar, não é, guria?

— Claro que não, seu pamonha. Palavra de escoteira. E eu já deixei de cumprir alguma promessa com você?

— Praticamente todas. E as que cumpriu, foi com um atraso considerável.

— Hã?! Certo... mas desta vez, estou falando super sério.

— E das outras vezes não estava?!

— Das outras vezes estava só falando sério, um sério normal. Desta vez, o sério viu o melhor amigo morrer e se transformou no super sério.

— Isso foi uma referência a Dragon Ball?!

— Ah, quer dizer que conhece Dragon Ball, mas não assistiu Rei Leão, é?

— Sim, eu sou nativo deste país, não dos Estados Unidos!

— Oh, verdade. Achei que fosse como os brasileiros que consomem sem pudor material estrangeiro, mas encontram mil desculpas para ignorar o material nacional.

— Não podemos falar muito. Dá para contar nos dedos quantas referências nosso autor fez sobre seu país.

— É, tem razão. Você está muito observador hoje, Ulim. Se continuar assim irá ganhar um biscoito.

— Você sabe que não como biscoitos!

— Tudo bem, então ficará somente com a promessa de eu te levar para caçar.

— Ei, espere, não estou totalmente certo sobre isso, guria. Não sei se devo confiar em você. Sendo sincero, não é como se eu não quisesse te levar, só que... ei, o que foi?

Não sei se foi alguma coisa que lati, embora provavelmente fosse, mas Yuna estava com a desolação estampada no rosto. Então, algo surpreendente e raríssimo para mim, aconteceu diante de meus olhos. A guria começou a lacrimejar, timidamente.

— Você está começando a chorar?!

— Eu... não sou confiável... nem para o meu cachorro? — E ela desabou de joelhos. Ela estava sendo bem dramática, convenhamos.

— Guria, não foi o que...

— Ulim, como posso me redimir? — Ela inclinou o torso para frente e se apoiou também com as mãos. — Veja, estou de quatro no meio da rua. Se usar meu corpo vai fazê-lo voltar a me amar, não perca tempo.

— Não diga coisas doentias, guria! Eu sou um lobo e castrado!

E também sou um líder de alcateia.

— Então me diga, o que eu faço? — Ela engatinhou para mais perto de mim. — O que eu faço pelo seu perdão? Diga. — E ela me abraçou pelo pescoço, começando a esfregar seu rostinho em mim com movimentos circulares. — Vamos, vamos, é só dizer, é só dizer.

— Guria, não seja tão dramática! Eu nunca disse que deixei de te amar. Mas, se continuar com essa esfregação grudenta, eu vou começar a considerar seriamente essa possibilidade!

— Está bem... — e ela me libertou do abraço. Ainda assim, continuou com os joelhos no chão, quase sentando sobre seus tornozelos, e pousando as mãos sobre as coxas, me encarou com os olhos brilhosos por causa do choro.

A isso, eu desviei o olhar.

— Tsc, você pode ser menos apelativa. Lembre-se de que sou um lobo, não aquele agente da Mythpool.

— Você o odeia? Quer que eu o mate?

— Ei, não! Pode parar com essa coisa de “o mestre mandou”. Anda, levante-se. Eu já me decidi, inclusive. Vou levar você, mas como estou sonolento, não conseguirei me mover acima de trezentos e cinquenta quilômetros por hora.

— Perfeito! — Da água para o vinho, Yuna mudou seu estado e se pôs de pé, alegremente. — Isso é mais do que suficiente para chegarmos em tempo e não pegarmos tanta fila!

— Mas tenho uma condição, guria.

— Ah, Império das... digo, Ulim, o que mais você pode querer? Já irá realizar o seu sonho de caçar e ainda tem o meu corpo para extravasar seus desejos.

— Seu corpo não faz parte da barganha!

— Não faz? Eu jurava que era o maior atrativo da negociação.

Algumas vezes, eu poderia jurar que ela falava sério sobre essas coisas.

Evito pensar sobre.

— Bem, minha condição é simples, se isso acalma seu coração. Eu quero escolher o local e época em que você irá me levar para caçar, tudo bem?

— É só isso?

— Sim.

— Então combinado.

Hmph, mal sabe ela o que meus neurônios estão emaranhando em minha mente canina...

— Vamos, guria, pode subir.

— Beleza, beleza! — Yuna se remexeu com o choque de empolgação e, claramente contente, ela abriu as pernas sobre minhas costas e se acomodou em cima de minha pelagem macia. Depois, ela esticou o braço e apontou para frente. — Corra, Ulim! Corra até o dia clarear! Nosso objetivo? Combatentes Masoquistas 4: O Masoquista Agora é Outro!

— Quê?! É esse jogo que você quer tanto comprar?!

— Ué, e qual outro seria, seu pamonha?

— Qualquer outro que fosse bom!

— Que blasfêmia! Retire o que disse! Combatentes Masoquistas 2: A Residência Masoquista, pode até ter ido mal nas críticas, mas o resto da franquia não deixa a desejar!

— É um jogo erótico disfarçado de luta, guria, não caia nessa!

— Não é erótico, seu pamonha. Ele só tem uma dosagem um pouco exagerada de fan service. Todavia, o enredo e jogabilidade da franquia são tão bons que chegaram a ser premiados no exterior. Combatentes Masoquistas 3: Masoquistas Podem Chorar, não me deixa mentir.

Para vocês que não devem saber, Combatentes Masoquistas é uma franquia de jogos de luta, onde só existem personagens femininas selecionáveis e o grande vilão é um misterioso sadomasoquista com habilidades místicas. Em questão da jogabilidade, é um jogo de luta genérico, mas se destaca pela velocidade e dinâmica dos combates, e também por um fator que dá sentido ao título do jogo: quanto mais as garotas apanham, mais pontos de energia elas ganham, podendo vencer o jogo com um único golpe especial de nível 3. E elas também perdem bastante a roupa durante os combates.

Em resumo, um jogo erótico disfarçado de luta.

— Hmph, não vou discutir com você, guria. Até porque, gosto não se discute. Eu só tenho uma pergunta a fazer?

— Qual?

— De onde você está tirando dinheiro para gastar com isso?

— Bem, seu pamonha, eu comecei a guardar para pagar o 23° Tóquio, mas aí acabei gastando um pouco com aquele problema que aconteceu no meu chuveiro, sabe?

— Sei.

— Pois é, aí pensei: se eu já gastei um pouco, por que não gastar o resto todo? Então, comprei esta regata aqui, importando direto da Alemanha, junto deste relógio que foi bastante caro. E teve também o preço do rastreador, e comprei um biquíni.

— Guria...

— O que é?

— Por que te consideram um gênio?

Sem dar tempo para que ela respondesse a minha pergunta, já que eu não procurava uma resposta, minhas patas se moveram, acelerando a todo vapor, e me levando de zero a cem quilômetros por hora em menos de um segundo.

Eu atravessei a Ponte Sakitama como um raio, e logo tomei a rota com menos curvas e desvios até Akihabara.

No deserto da madrugada, não haviam muitos obstáculos no caminho, assim, o percurso foi percorrido em quinze minutos. Onde, cinco minutos, foram consumidos em uma pequena pausa em uma loja de conveniência, porque Yuna precisava ir ao banheiro.

Eu nunca acreditei quando a guria parava algo para ir ao banheiro.

Garotas bonitas não usam banheiro, usam?

Minha mente canina ainda tem de se adaptar a algumas novidades.

Enfim.

Quando ela voltou, aproveitou e trouxe um pote de batata e leite com chocolate, onde ambos ela já estava degustando ao sair da loja.

Nem ao menos um petisco para mim.

Fiz ela voltar.

Em seu novo retorno, a guria me trouxe um pedaço de bife.

Desse ponto, retomamos a viagem sem mais nenhuma interrupção para nenhuma necessidade fisiológica ou alimentícia.

E finalmente, Akihabara.

— Eu realmente não acredito, seu pamonha, consegui comprar um dos últimos e mal fiquei na fila.

Yuna disse isso de pé no meio-fio da calçada à frente do comércio especializado onde ela adquiriu sua cópia do jogo. A guria olhava a arte da capa em suas mãos e seus olhos azul-escuros brilhavam com sua felicidade. Ainda sobre as nuances do lado humano da Assassina de Youkais, ela chegou a suspirar enquanto encarava o jogo em suas mãos. E isso me fez questionar a mim mesmo, os motivos por toda aquela paixão pela franquia de um jogo tão sem noção.

Não encontrei nenhuma resposta.

Nada, até hoje.

— Hmph, você diz que mal ficou na fila porque seduziu um garoto para entrar na sua frente. Você não tem vergonha de ter jogado sujo para conseguir algo que parece gostar tanto?

— Os fins justificam os meios, seu pamonha. E eu não joguei sujo. Só utilizei uma estratégia mais eficiente para conseguir o que queria. Jogar sujo seria ter roubado o lugar do garoto, ou não ter pago pelo jogo. O garoto me ofereceu o lugar conforme a conversa se desenrolava. Em momento algum eu pedi para entrar na fila ou fiz algum gesto para seduzi-lo. A verdade é que ele só gostou do meu carisma e me deixou entrar. Agora, se você quer pensar em injustiça, Ulim, lembre-se que você me trouxe aqui quebrando todos os limites de velocidades permitidos neste país.

— A forma como foi transportada não é importante, guria. Não me sentirei culpado se algum desses otakus ficou sem a edição de lançamento desse jogo erótico.

— Não é erótico, já disse. É um super jogo de luta, com um enredo incrível e jogabilidade impressionante. Não seja preconceituoso só porque as personagens perdem a roupa durante as batalhas. Até parece que você tem algo contra isso. Nos jogos de luta com personagens masculinos, eles também têm as roupas rasgadas e você nunca reclamou sobre isso.

Hmm, vendo por esse lado...

— Certo, guria, você venceu desta vez.

— Como sempre, não é? — Suas mãos foram para sua cintura. — Escuta, se quiser resolver nossas diferenças de maneira pacífica, podemos jogar uma partida de xadrez, quando voltarmos.

— Dispenso. Você está alguns andares acima de mim nesse antigo esporte olímpico.

— Então, só nos resta resolvermos em uma partida justa de Combatentes Masoquistas 4: O Masoquista Agora é Outro, o que acha?

— Você só escolhe coisas em que tem vantagem!

— Claro. Conhecer o terreno do combate é de suma importância.

— Está levando isso muito à sério!

— Eu só quero vencer para não ter de te levar para caçar.

— Pretende usar isso para desfazer nosso acordo?! Esse era o seu plano desde o início?! Nunca!

A guria sorriu de maneira maligna, virando um pouco o rosto para que eu tivesse dificuldade para notar.

— Nunca! Nunca! — E lati. — Temos um pacto, guria, não ouse tentar quebrá-lo. Se o fizer... talvez eu deixe de amá-la.

— Hã?! — Ela se espantou com minha ameaça, dando um passo para trás e colocando uma mão no peito. — N-Não, Ulim, eu só estava brincando, me perdoe...

— Tudo bem — respondi. — Só espero que não se repita.

— Não se repetirá! — E Yuna bateu continência.

Essa guria conseguia ser tão dramática em alguns momentos, que as coisas pareciam estar acontecendo em uma obra de ficção.

— Vamos — falei, começando a caminhada de retorno. — Você já conseguiu seu jogo, eu só quero conseguir meu sono. Acho que irei dormir por uma semana inteira.

— Eu já ouvi falar em uma garota que dormiu durante vinte e dois dias. — Yuna não demorou a me acompanhar.

— Vinte e dois dias, é? Não seria uma má ideia. Mas acho que Mena me acordaria para fazer alguma coisa nesse meio tempo.

— Não fale como se fosse só com você, seu pamonha. Eu acredito que o Mena receba a mais por nos acordar em momentos aleatórios.

— Está aí uma coisa em que concordamos, guria. Claro, digo isso com todo respeito, já que ele é o meu mestre.

— Não se preocupe, não irei contar a ele.

— Eu agradeço.

— Só não posso garantir que meu incrível relógio não gravou todo nosso diálogo desde que saí da loja.

— Tsc, e quem é você? Renato Russo? Você não chegaria nesse ponto, creio eu.

Finalizando esse tópico randomizado, nós paramos no cruzamento em Akihabara e, pacientemente quietos, aguardamos a alteração das cores do semáforo para podemos prosseguir com nossa viagem.

Com uma pequena espera, foi sinalizada nossa permissão para atravessarmos a rua, mesmo que não houvesse nenhum veículo passando anteriormente.

Então, ao segundo passo de Yuna sobre uma faixa branca da faixa de pedestre, minha audição canina detectou um zunido fraco, porém veloz, vindo de uma direção que foi complicado distinguir, o que já era bem estranho.

A guria cessou seu caminhar de imediato.

À frente de seus pés, no asfalto, um pequeno buraco apareceu. E de dentro dele, uma tímida fumaça branca emanava.

O cheiro era de pólvora e metal.

Não qualquer metal.

Era adamantina.

— Atiraram em nós? — Em uma mudança comportamental medonha, Yuna ficou séria e em alerta. Se manteve imóvel. Somente seu par de safiras se movia, em modo analítico, ou até como um rastreador, parecendo estar acompanhando uma rápida partida de tênis de mesa.

— Pela precisão, o disparo só poderia ser contra nós.

— Você não conseguiu detectar?

— É justamente isso o que está me intrigando, guria. Seja lá de onde o projétil veio, ele percorreu todo o trajeto praticamente indetectável para todos os meus sentidos.

— E pelo cheiro, consegue traçar alguma rota?

— Também não. Só consigo identificar o material. Adamantina.

— Então não é um amador. Interessante. Espero que não seja ninguém da Deep Web vindo me cobrar.

— Não deve ter sido uma simples bala perdida.

— Hmph, você chegou a considerar isso, seu pamonha? Parece que está um pouco ingênuo hoje, não é mesmo? Este tiro era para nós. Mas, exatamente para qual de nós? — A guria baixou o olhar para o buraco da bala no chão e, em seguida, se agachou. Os olhos fixos, estudando o local. — O buraco está um pouco na diagonal, levemente inclinado para direita, o que indica que o projétil veio dessa direção e, bem, do alto, só que não tão alto, a julgar pela mesma inclinação.

— À direita há um edifício, aparentemente comercial.

— Estou sabendo, seu pamonha. O atirador está no vigésimo quinto andar.

— Como afirma isso com tanta certeza?

— A certeza, eu vou buscar agora.

— Guria, o que...?

Ela não me deixou nem ao menos adverti-la de nada. Descaradamente, Yuna simplesmente voltou seu rostinho para o vigésimo quinto andar do prédio mais à nossa direita. E com uma expressão fofa, acenou na mesma direção.

E aquela ousadia cobrou seu preço.

— Droga.

Mesmo olhando na direção correta, a Assassina de Youkais não pôde acompanhar ou detectar o segundo disparo misterioso que aconteceu. O projétil veio seco, com o mesmo zunido fraquíssimo e com uma velocidade que parecia superar a do som. Minha perna direita traseira foi alvejada na coxa, sem que eu percebesse que o tiro estava endereçado para mim.

— Ain, ain! — A adamantina atravessou minha perna como uma agulha atravessa uma folha de papel umedecido.

A guria se ergueu e uma shuriken de gelo surgiu em sua mão. Ela lançou com assombrosa precisão e força na direção do vigésimo quinto andar daquele edifício, mas sua intenção não era acertar o atirador lá dentro. Enquanto a shuriken voava em sua trajetória, um terceiro disparo ocorreu. O projétil estava indetectável como os dois anteriores, só que a shuriken de gelo estava em cena justamente para tornar aquela bala “visível” para Yuna. Como a arma gélida estava no caminho do projétil, ela foi estraçalhada em pleno ar, mas revelou para a Assassina de Youkais o trajeto. E, mais rápido que as leis de causa e efeito, o braço da guria se moveu. Com maestria, ela apanhou com dois dedos a bala de adamantina, que vinha novamente em minha direção.

O projétil foi congelado imediatamente ao Yuna tocá-lo.

— Boa... guria...

— Quieto.

Após apanhar sua evidência, Yuna me ergueu com um único braço e apoiou meu corpo sobre seu ombro, começando a sair da linha de fogo e adentrando ainda mais em Akihabara.

— Não se preocupe, Império das Pulgas, só preciso encontrar um lugar fechado.

— Me chamou... disso... de novo... guria...

As propriedades místicas da adamantina deveriam estar fazendo seu trabalho sujo, pois meus sentidos caninos estavam se deteriorando rapidamente.

Eu estava ficando sonolento.

Tudo estava ficando escuro.

— Aguente... firme... Ulim...!

A voz de Yuna ecoava distante, mesmo o som sendo emitido a centímetros de minhas orelhas. Naquele ponto, somente minha consciência estava operante, mas logo ela iria se perder, também. Aquele projétil de adamantina não era uma munição qualquer. Seus efeitos místicos estavam agindo de maneira bem mais catastrófica para um ferimento na perna de um inugami, cuja resistência a magia é consideravelmente acima da média.

Não demorou muitos segundos para que eu desmaiasse de uma vez. 

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