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Esqueceu a Senha?

Capítulos (1 de 3) 02 Oct, 2019

Capítulo II - Garotos Não São Permitidos Aqui!

O som do corpo sendo arrastado afastando a neve assustou os pássaros que repousavam nos pinheiros. A cantoria da voz masculina atraía raposas curiosas, mas elas não ousavam se aproximar, seguiam de longe. Do outro lado, os lobos esperavam sentados que os dois passassem, aquele arrastava, e aquele que era arrastado.

— Sabe qual é o problema de vocês? — ele parou de andar e soltou o corpo. 

A pessoa se remexia e resmungava, mas as mãos amarradas e a boca coberta tornava isso tudo inútil.

— Vocês vivem lutando e lutando e sabe, isso não vai a lugar nenhum... — mostrou um sorriso torto — e dizem que seu Deus é tão perfeito! Mas criou criaturas horríveis como vocês.

E riu do que disse, riu da expressão desgostosa e riu quando cuspiu no rosto dele.

— E ainda assim lá estão vocês, de joelho todo maldito domingo, implorando pela piedade do Pai, implorando para que alguém que não se importa com vocês, com o erro dele... Implorando por piedade. E no fim, vai ser eu que vou ter de lidar com vocês.

O homem de pé, o homem que ria atoa e que estava vestido num casaco furado arrancou o trapo que cobria a boca do outro e se jogou sentado na neve. O homem velho puxou o ar como se estivesse se afogando, como se lhe faltasse o ar à muito tempo, porque o medo o sufocava.

— Oh maldita escoria! — bradou encarando o velho — mas você tem sorte, você tem sorte... 'realeza'. Você não vai estar aqui pra ver o que vou fazer.

Ele se levantou e agarrou o rei pelo colarinho, com dificuldade pelo peso do homem, o colocou contra o tronco de uma árvore. Lobos, raposas e corvos estavam parados ao redor deles, a quarenta ou quarenta e cinco palmos de distância, apenas assistindo. De alguma forma, por puro instinto, os animais sabiam o que aconteceria.

O velho se remexia violentamente tentando escapar, escapar pois entendeu que não tinha sorte alguma, entendeu que seria somente o primeiro a ver o que aquilo iria fazer.

— Malditas sejam as bruxas!... — O rei bradou soltando saliva para todo lado.

O outro riu, o pegou pelo queixo e o fez olhar em seus olhos.

— Isso, isso mesmo... 'malditas sejam as bruxas' — e mostrou o sorriso mais largo até agora, enquanto o rei secava, apodrecia como uma fruta caída ao pé da árvore, encarando a sua própria face sendo formada no lugar do rosto do outro homem.


***


Ela se levantou e encarou Mario com tanto ânimo que ele deu um passo para trás com receio do que aquela mulher poderia lhe fazer. 

— Me mostre do que é capaz, querido — sorriu oferecendo a própria varinha à Mario.

Um Mario constrangido deu um segundo passo para trás encarando surpreso e assustado aquela varinha. O que faria com aquilo? Era bruxo a menos de um dia!

— Sinto muito senhora, eu ainda não sei fazer nada…

Carmen voltou a ficar ereta e apoiou o queixo sobre o punho um pouco decepcionada. Parecia como se um interruptor tivesse sido pressionado em seu cérebro, passando de animada para entediada.

— É uma pena... — Ela se sentou ajeitando os papéis sobre a mesa que havia bagunçado — Sinto muito por isso Linda, mas não posso aceitar rapazes aqui.

Linda abriu a boca com os olhos escancarados, ela queria protestar, mas estava sem chão para isso. Ela ajeitou a própria gola e umedeceu os lábios para tentar falar.

— Por favor, Carmen! Pense direito... Permita qu…

— Lira, você poderia? — A diretora interrompeu Linda sem nenhum receio.

Lira puxou sua varinha de dentro do uniforme segurando-a com a mesma segurança de um espartano com sua lança em mãos. Mario observou sua irmã e percebeu que nunca havia parado para ver o quão impressionante ela poderia ser.

— Sim, senhora.

Mario e Lira eram gêmeos, filhos de Linda e Henrique Lascey. Lira desenvolveu sua magia aos oito anos e desde que entrara no colégio para bruxas se tornou o orgulho da família, àquela que encantava todo mundo, que seria como a mãe. Mário por outro lado, desde cedo teve de aprender sobre os metais que iriam ser seu trabalho, e as vezes olhava para Lira com inveja — e se sentia um pouco arrependido agora que estava assustado com os poderes —. Acontece que aos poucos essas coisas foram separando os irmãos. Tudo piorou com a morte de Henrique, vez ou outra Mario acabava ouvindo sua mãe chorando à noite, e a alguns anos atrás via Lira fazendo isso também, mas não se lembra quando foi que parou de ver. Mario nem se lembrava mais da última vez que conversaram um com o outro, só se lembra de quando Lira foi se tornando cada vez mais silenciosa e virou apenas mais um fantasma em casa.

Os pensamentos de Mario retornaram ao mundo real quando ele começou a ouvir algo estalando. Nas mãos da irmã a varinha parecia estar se incendiando na ponta, como fogos de artifício, demorou um pouco até perceber que ele era o alvo. Ela suavemente levantou a varinha e em seguida a desceu tão rápida e tão precisa quanto uma águia mergulhando para caçar. A bola roxa flamejante atingiu Mario que não conseguiu evitar um grito assustado, a luz o engoliu envolvendo todo o corpo e como se enfiasse agulhas em seus membros penetrou sua pele, seus órgãos, suas veias.

Do lado de fora da luz Linda cobria os olhos das faíscas, Lira se mostrava indiferente, e Carmen tinha um sorriso pregado na face.

Aos poucos a branquidão começou a desaparecer, por fim revelou a nova aparência de Mario Lascey, a causa de seu estômago parecer estar sendo torcido.

— E-então era isso que você quis dizer... — Linda disse desconcertada.

Mario olhou nos olhos da mãe buscando qualquer conforto, estava confuso como uma criança perdida na guerra. Seu corpo estava quente como quando passava horas na oficina, fumaça saia de seus pulsos e ombros. Os dedos de Mario haviam se afinado, seus braços estavam bem mais magros e sua cintura parecia ter sido totalmente comprimida, o tórax saltava para frente como o de uma mulher, e seu cabelo, que antes tocava apenas seus ombros agora lhe tocava até o meio de suas costas. Mario havia se tornado uma mulher.

— O-o que você fez comigo? Lira! — sua primeira reação foi se zangar, ele cobriu a boca ao ouvir a voz aguda e rouca.

Mas sua irmã apenas soltou um sorrisinho rápido.

— Não se preocupe, você está linda — Carmen comentou recebendo todas as atenções — Essa é a condição, Mario terá de ser uma garota para estudar aqui.

— Tudo bem — Linda concordou sem reclamar.

— Minha opinião não vale nada aqui!? — Mario reclamou.

As três quase em coro responderam: "Não!" E Mario não fez mais nenhum comentário.

— E também que seria muito problemático ter que lidar com todo o alvoroço das garotas…

O som de demolição e o tremor do chão assustou Mario e Linda e interrompeu Carmen que foi diretamente para a janela. Lira suspirou.

— Ele se soltou de novo não é? — Lira perguntou.

— É... — Carmen soltou em um tom desanimado — Vai lá ajudar as garotas.

Lira guardou a varinha e correu até a janela, Carmen abriu espaço e a garota saltou. Poucos segundos depois uma vassoura passou como um borrão vindo do corredor em direção a Lira.

— Não se preocupem, é apenas um probleminha rotineiro...

Mario se aproximou da janela e espiou o que era, uma criatura de patas grossas e costas largas cinzentas arrastava uma corrente tão grossa quanto sua coxa enquanto tentava escapar das tentativas das bruxas em captura-lo, sua cabeça era tão grande que ele poderia sumir com um cão em uma só abocanhada.

— Isso é um problema rotineiro? — perguntou injuriado.

— Você deveria ver o que fazemos quando saímos para missões de campo — riu.

— Eu me lembro delas... — Linda falou um pouco incomodada.

— Você era péssima! — Carmen exclamou.

— Não mais que você! — retrucou Linda.

Enquanto as duas conversavam, Mario sentiu algo subindo por seu peito, ele se arrepiou com a sensação e com uma nuvem de fumaça verde escura, ele havia voltado ao normal.

— Bem... — Carmen limpou a garganta — Mario começa amanhã, vou mandar o uniforme com a Lira.

— Certo, obrigada Carmen, sou eternamente grata a você.

Linda sentia quase como se um peso esvaísse do seu coração.

— Por nossa amizade tão antiga — Carmen sorriu.

Linda e Mario saíram da sala quando acabaram de se despedir. Após deixarem o prédio encontraram um grupo de bruxas carregando a criatura nocauteada utilizando magia. Eles saíram pelos portões e voltaram para casa. Mario pelo caminho não conseguia deixar de pensar no quão estranho se sentiu enquanto era uma mulher e sobre seu futuro naquele colégio.

"Tenho um péssimo pressentimento... O quão amaldiçoado estarei a partir de hoje?...", Ele se perguntava.

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