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Esqueceu a Senha?

Capítulos (1 de 5) 01 Oct, 2019

4 – O cheiro de um anjo

- ...

- Tudo bem, pai. – disse Shiree.

- ...

- Espero que se dêem bem. Já puderam se conhecer um pouco enquanto conversavam agora não é? – disse o conde Winter, gesticulando e rindo como se todos estivessem felizes.

- Sim, e devo acrescentar que Lem é uma pessoa encantadora. Fico feliz com sua decisão, pai. E principalmente... – Ele parou e a encarou por um instante - Ela tem um cheiro muito bom – respondeu Shiree sorrindo. O comentário sobre o cheiro dela fez o conde Winter rir, Victor porém, permanecia sério, e não tirava o olhar de Lem.

- ...

- N-não vai dizer nada, Lem? – Perguntou Victor à sua filha, sua voz estava quebrada e ele soava nervoso.

-Dizer o quê? Que agora eu sei por que te odeio? Que percebi que odeio saber que manipularam minha vida como se eu fosse só uma boneca (ah, claro... Boneca...). Quer que eu diga que agora eu entendi o modo de agir desse... – ela não conseguiu nem pensar no nome dele – ... É por isso que ele se aproximou de mim... Por onde meu pai acha que eu devia começar? Quer mesmo que eu diga tudo que estou pensando? Ele adoraria ouvir, mas não tanto quanto eu adoraria dizer... -

- ... Preciso de um tempo pra pensar... Por favor... – no fim, foi só isso que ela conseguiu dizer.

- Que assim seja. – Victor não parecia tão satisfeito com a resposta da filha.

- Com licença...

Dizendo isso, Lem saiu e se dirigiu ao hall de entrada da mansão. Ela viu o mordomo entrando na porta ao lado da escadaria principal. Ela passou por ele ignorando seja lá o que for que ele disse e foi invadindo a cozinha em direção à uma porta que levava pro lado de fora da casa. Ali tinha um jardim. Ela gostou da idéia e foi deitar-se ali no meio das flores. Como elas eram altas, assim que ela se abaixou, escondeu-se da vista completamente. Mesmo se alguém passasse ali perto, não a veria. Ficou ali no meio de umas flores azuis que tinham um cheiro bom. Só quando fechou os olhos percebeu que estavam molhados, mas decidiu deixar assim. O cheiro delas a faria esquecer um pouco da situação em que se encontrava. Pensar que seu pai acabara de lhe tirar o resto de liberdade que lhe restava, já a deixava com raiva. E saber que teria que tolerar por muito mais tempo alguém como Shiree realmente não ajudava. Ela respirou fundo pra absorver o odor das flores. Fez isso várias vezes até perceber que já nem se lembrava mais o porquê de estar com raiva. Agora ela se via no jardim que havia perto da sua escola, e percebeu que nunca havia descido pra se misturar com as flores antes. Sempre as admirou de longe. Ela começou a andar pelo jardim, com os braços abertos para tocá-las enquanto passava. Havia flores até onde seus olhos podiam ver, uma grande árvore ao longe e depois, bem longe, estava o mar.

–Nunca pensei que esse lugar fosse tão grande... -

Ela respirou fundo novamente, mas dessa vez não absorveu só o leve e doce aroma das flores. Havia algo mais.

– O que é isso...? Sei que já senti esse cheiro antes, mas... Não consigo me lembrar... -

Então, Lem virou-se para o caminho de onde havia vindo. A dúvida da origem do cheiro sumiu no mesmo instante. As mesmas flores que ela tocou enquanto andava, estavam agora em chamas. Mas as chamas não se espalhavam pelas outras flores, elas estavam apenas onde Lem tocou, como se tivessem sido treinadas a não sair dali. Lem estava confusa, olhou de novo para frente, e ali não havia fogo. Depois se voltou para as flores que estavam queimando e olhou de perto. Havia uma voz vindo da chama, porém, estava muito baixa e Lem não entendia o que ela estava dizendo. Ela tentou se aproximar só mais um pouco, tomando cuidado pra não se queimar. Foi aproximando o ouvido da chama, até que começou a sentir o calor dela. No entanto, o calor não vinha só da flor queimando. Lem olhou pra baixo e viu que o solo agora também estava em chamas. Olhou pra frente, e para os lados, e estava tudo queimando. O cheiro das flores desaparecera, agora ela só sentia o odor da fumaça. A voz vindo das chamas estava mais alta. Lem tentou prestar atenção para saber o que ela dizia, mas ainda não compreendia bem. Era como uma estática, a voz se distorcia e começava a se parecer com o som de um papel barulhento sendo amassado. Lem olhou para a grande árvore, e viu que o fogo não chegou até ela. Na verdade, até parecia que o fogo fugia dali. Ela tentou ir até lá pra se salvar. Quando se aproximou um pouco mais, viu uma pessoa encostada na árvore, mas não pode distingui-la. Lem chamou por ela, mas a voz do fogo já estava tão alta que sua voz se perdeu no ar, passando despercebida até pela própria dona. Lem correu na direção da árvore, quando o vulto começou a lhe encarar. Lem não viu seu rosto, só seus olhos. Ela os reconheceu e sentiu um susto ao perceber quem era. Com o susto, ela fechou seus olhos instintivamente. Com os olhos fechados, ela não sentia mais calor, e a voz no ar tornou-se mais clara. Até que ela distinguiu finalmente o que a voz dizia...

- Acorde, Lem...

- ...Uhnn...?

- Acorde, você dormiu no chão. Vamos levante-se. Seu pai a espera por uma resposta.

- ...Shiree...? –percebeu Lem-

- Sim. Você está suando. Estava tendo um pesadelo?

- Pesadelo...?

-Tem razão, estou suando... Mas pesadelo... Talvez fosse, mas... Não tive medo apesar de ser uma situação assustadora... Nem daqueles olhos... Não tive medo, só... Só compaixão... Eles eram tão familiares... -

- Novamente perdida em pensamentos, né? Se aceita um conselho, deixe isso para outro momento, quando tiver tempo. Seu pai está ficando impaciente por sua demora, e me pediu pra te procurar.

- Hmm... Ok... – Ela ainda não queria ir falar com ele, mas depois daquele sonho tudo parecia distante. Como se tivesse acontecido com outra pessoa. Só então ela percebeu que havia adormecido no meio das flores. Havia pensado que estava escondida demais pra ser achada ali, mas mesmo assim Shiree a encontrou.

- Como sabia que eu estava aqui? – ela perguntou olhando Shiree nos olhos pra saber se ele falaria a verdade.

- Eu... Senti seu cheiro... Aqui... – pra sua surpresa, ele desviou o olhar e não conseguiu encará-la.

- ...

O novo comentário sobre o cheiro dela a fez ficar meio sem graça, mas ela ficou feliz por se manter olhando para o rosto de Shiree nesse momento. Ele corou um pouco quando disse isso, e pareceu sem jeito. Isso ao menos fazia Lem considerá-lo um pouco mais normal.

Eles voltaram juntos pra dentro, e sem trocarem mais nenhum olhar, foram até o escritório onde estavam o conde e Victor.

Quando Lem entrou, imediatamente Victor perguntou pela resposta da filha.

Ela suspirou por um momento, e concluiu que não conseguiria fugir dessa decisão do pai enquanto morasse na mesma casa que ele.

- Tá... Farei o que você quer pai... – disse isso trocando um olhar com o pai. Ambos expressavam descontentamento.

- Ótimo, que bom que tomou a decisão certa. – concluiu Victor recompondo seu ar de esnobe.

-Como se eu tivesse escolha... - pensou Lem.

O conde Winter levantou-se, pegou sua bengala e caminhou até a porta, pedindo vistosamente para que todos o acompanhassem até a sala de jantar, onde ele serviria algo para comer. Victor o seguiu, e passou por Lem sem nem olhar para ela. Shiree tirou um graveto que tinha ficado nas costas de Lem e fez um sinal para ela o seguir. Ela suspirou, e saiu atrás dele. Foi servido um jantar, anunciado pelo mordomo e mais umas criadas. Tinha várias coisas diferentes, algumas que Lem gostava, mas seu apetite simplesmente não estava ali naquele momento. Todos comeram e o conde falava muito, nem sempre dando a chance pros outros responderem. Após pouco tempo, Shiree percebeu que Lem mal havia tocado na comida e antes que mais alguém notasse, ele disse que mostraria a biblioteca da casa para ela, e saiu pedindo sua companhia. Lem pensou que devia ser um pouco melhor do que ficar ali, e o seguiu sem dizer nada. Ele entrou num quarto do segundo andar onde haviam várias estantes cheias de livros. Todas paralelas entre si, até chegar na parede do outro lado. Entre uma estante e outra, tinham janelas grandes que iluminavam todo o cômodo.

-É bem maior que a biblioteca da casa da minha avó... -

Lem ficou por um tempo vendo os livros, enquanto Shiree sentou-se quieto em baixo de uma das janelas e ficou lendo um livro sobre funções cerebrais que provavelmente já havia deixado separado. Os dois não se falaram por um bom tempo, até que o mordomo veio avisar que Victor chamava por Lem, pois estavam indo embora. Antes de sair, Shiree disse para Lem ficar com os livros que havia gostado mais, mas ela recusou o presente e saiu com o mordomo até onde seu pai a esperava.

Da janela da biblioteca, Shiree viu o carro de Victor virando a esquina.

O sol estava se pondo, e os últimos raios de sol invadiam a biblioteca, fazendo a forma da grade da janela ficar desenhada no chão em tons de laranja. Shiree levantou-se, fechou o livro marcando a página onde parou e encostou a cabeça na janela. Muitas coisas passavam por sua cabeça, e ele não sabia distinguir quais delas eram verdade ou não. Ultimamente, tudo em sua vida parecia mentira. Um sonho sem cores, misturado com a sensação de insatisfação. No livro que estava lendo, um doutor dizia que enviando sinais elétricos ao cérebro, era possível fazer uma pessoa se lembrar de coisas esquecidas, ouvir músicas e até ter ilusões, porém existem pessoas que passaram por traumas que eram capazes de gerar essas ilusões sem o estímulo elétrico. Traumas podiam mudar toda a vida de uma pessoa, e trancá-la num mundo próprio que ela nunca perceberia se é ou não real. Se tudo na vida de uma pessoa pode ser ilusão, gerada por um motivo específico ou não, como dizer com certeza que foi algum trauma que causou isso? Você não pode sentir as dores de outras pessoas pra comparar... Até onde valia a pena ir pra saber o que é real, ou não?

Shiree sentou-se no chão, de costas pra janela, observando o desenho da grade desaparecendo do chão conforme o sol se punha.

- Meu anjo... Você é real...?

...........

Acordo olhando pra parede... Como no momento em que fui me deitar... Não gosto de dormir olhando pro meu quarto... Sinto-me exposto... Prefiro ficar só no meu próprio mundo fechado... Por isso, prefiro a limitação da parede... Me levanto sem arrumar a cama, olho pro meu reflexo no espelho da porta do meu guarda-roupas. Os cabelos castanho-claros desgrenhados e os olhos verdes sem brilho confirmam que eu ainda sou eu. Após me arrumar, como alguma coisa qualquer e saio novamente pra ir pra escola. Não digo tchau a ninguém em casa, afinal ninguém diz também.

Lá fora é frio, mas eu até gosto desse frio. Coloco o gorro e as mãos nos bolsos da minha jaqueta preta, e vou caminhando lentamente com a cabeça baixa, pra não ter que olhar pra ninguém, e poder ficar novamente só dentro de mim.

Não vejo nada de útil que possa fazer com o que aprendo nessa escola, mas mesmo assim costumo prestar atenção e fazer tudo o que dizem pra fazer. No mais, não tenho nada melhor pra fazer mesmo, e ficar parado demais me faz começar a pensar em coisas que me incomodam.

Tenho só duas amigas, mas gosto bastante delas e não pretendo deixar mais pessoas entrarem na minha vida.

Mesmo assim, sinto que poderia abandonar as duas se encontrasse algo que me fosse mais satisfatório.

Ou só me convenço disso pra que meu orgulho não me incomode dizendo que sou dependente delas.

- Oi Duo, bom dia. A Lem ta atrasada de novo, né? – Lilly me diz assim que me vê entrando pela porta da mansão que é nossa escola.

- ...Bom dia Lilly... Acabei de chegar, não vi ela por aqui.

- Daqui a pouco ela aparece, eu acho.

- É...

- Ontem foi estranho, né? A sala com os livros, o menino que a Lem viu... Você podia ter pegado algo de lá também.

- Nada me interessou... – era mentira. A máscara sem emoções me interessou. Seria muito mais fácil lidar com as pessoas com algo assim. Ninguém saberia o que estou pensando e eu poderia olhar pra frente sem ser invadido. –

- Bom, vamos pra sala então. Não tem nada pra fazer aqui na entrada.

- Vamos.

Nossa sala era grande, havia uns quadros na parede com uns desenhos abstratos. Não sei se todos viam o mesmo que eu naquelas manchas, mas eu sempre via pessoas. Homens andando em trilhas únicas, mulheres sentadas abraçando suas pernas, e um homem ajoelhado em um deles.

Havia grandes janelas que iluminavam nossa sala quando o sol estava de frente pra ela na hora da entrada. Era bom porque o sol da manhã é fraco, e quase nulo, assim ficava um clima gostoso. No resto do dia quando o sol já estava mais forte, ele não batia de frente com a nossa sala, portanto a sala não ficava muito clara. Meu lugar, na ultima cadeira da primeira fila começando da porta, era bem confortável. Eu podia encostar na parede, e como Lilly sentava do meu lado e Lem na minha frente eu não tinha que falar com mais ninguém além delas. Vez ou outra, o professor de matemática me pedia pra resolver alguma questão na lousa. Eu não gostava disso, mas sempre respondi certo. O professor parecia ter certo interesse em mim, acho que ele queria que eu fosse mais extrovertido como os outros alunos. Isso não é pra mim...

Lilly falava bastante comigo, mas também tinha outros amigos, embora dissesse que eu era o preferido dela. Mesmo eu dizendo que não me importo de dividir o espaço dela. Sei que ela gosta de ser livre, e como ela pode ser, não gostaria de tirar isso dela. Mesmo assim, já havia percebido que ela nunca falava muito de si mesma pros outros, a não ser pra mim e para Lem. De certa forma, ao mesmo tempo em que me deixava satisfeito saber que tinha a confiança dela, também ficava receoso. Não queria carregar a responsabilidade de ter que fazer algo por ela se um dia ela precisasse. Não que não quisesse, só não sei se conseguiria ajudar...

Mesmo assim ela parecia confiar em mim. E sempre me contava sobre a família dela, sobre os sonhos que ela tinha, coisas que gostava...

Só havia uma coisa que ainda não tinha entendido. Mesmo sabendo que ela tinha um gosto peculiar pra enfeites, não sabia o que ela queria fazer com aquela adaga. Ela nunca me falou nada que me desse a idéia de que ela precisaria daquilo pra alguma coisa. E aparentemente, não queria tocar nesse assunto. Pelo menos não comigo, eu acho...

- Todos aos seus lugares, por favor.

O professor entrou na sala de repente, acompanhado de um garoto. Ele tinha cabelos muito pretos debaixo de uma touca azul escuro, que era também a cor de seus olhos. Devia ser mais velho que eu, ou pelo menos, não tinha um rosto muito infantil.

- Esse é Gilbert Sullivan. Ele é novo na cidade, e vai estudar conosco agora.

Não sei porque ainda tinha gente vindo morar nessa cidade, mas isso significava que talvez eu deixasse de ser a novidade pros garotos mais velhos.

- Você pode se sentar ali naquele lugar vazio.

O professor apontou pra cadeira à minha frente, que era o lugar da Lem, que ainda não havia chegado, se é que viria hoje.

- Professor, esse é o lugar da Lem. Ela faltou hoje. – disse Lilly salvando o lugar da amiga contra o novo ocupante.

- Bom, então ele pode ficar aí hoje, amanhã eu mando por outra cadeira em algum lugar pra ele. – disse o professor fazendo sinal para Gilbert ir se sentar no lugar provisório.

Gilbert se sentou sem dizer nada a ninguém, e ficou ali quieto. Como primeira impressão, eu talvez me desse bem com ele, afinal deve ser o tipo que só fala se falarem com ele.

Passou-se algumas horas, e o sol já não estava mais mandando raios de luz em nossa sala, o que fazia desse, o momento mais escuro do dia na nossa sala, apesar de estar bem claro lá fora. Em alguns minutos seria a hora do intervalo, e como de costume, eu e Lilly ficaríamos na sala, conversando.

O professor avisou para sairmos pro recreio, pegou suas coisas e saiu também. Todos se levantaram e foram saindo, conversando e brincando entre si, até que a sala silenciou. Mas nem todos saíram, além de Lilly e eu, Gilbert ficou também. Lilly me olhou de uma forma que parecia dizer que “não teremos privacidade hoje”, eu balancei a cabeça concordando.

Gilbert então se virou para nós, e finalmente falou.

- Vocês não vão sair pro intervalo?

- A gente costuma ficar aqui. É mais quieto. – respondeu Lilly.

- Hmm. Então acho que se eu ficar vou atrapalhar vocês, né? – Gilbert já estava se levantando pra sair, mas Lilly o interrompeu.

- Não precisa se incomodar pode ficar se quiser. A gente não ia fazer nada de mais, só ficamos aqui porque é mais calmo do que a gritaria lá de fora.

Gilbert se sentou de novo, e começou a conversar com Lilly. Eles ficaram conversando por todo o intervalo, e eu fiquei quieto folheando meus cadernos como se estivesse interessado. Não tinha nada mais com o que me entreter, e ficar ouvindo a conversa deles não era muito divertido pra mim. Achei melhor deitar-me sobre meus braços e fingir que dormia, assim ambos me ignoraram e continuaram a conversar. Gilbert parecia que havia gostado de Lilly, perguntou varias coisas sobre ela, inclusive coisas pessoais. Mas o que me surpreendeu foi ela responder a ele. Ele perguntou da família dela, se era filha única, e ela respondeu que tinha uma irmã mais nova, Nilla, e falou um pouco dela. Perguntou também quais músicas ela gostava, do que gostava de fazer, e mais algumas coisas.

Depois de um tempo os alunos voltavam pra sala ao som do sino, o que significava que o intervalo acabou. Gilbert novamente ficou quieto, e se virou pra frente. Olhei pra Lilly pelo canto dos olhos, e ela estava de cabeça baixa, apertando as mãos embaixo da mesa. Depois disso, não olhei mais pra ela até o fim da aula. Quando já era a hora de ir embora, começamos a arrumar nossas coisas para sair, então Gilbert levantou-se e saiu junto do professor, provavelmente para levar o papel pra que o professor assinasse e ele pudesse entregar à secretária. Lilly o acompanhou com o olhar, e depois se virou pra mim.

- Porque não falou com ele? Achei que ele é legal... Talvez vocês se dêem bem. – ela me disse enquanto guardava seus cadernos.

- Talvez...

- Você às vezes é muito fechado. Acho que te faria bem conhecer alguém novo pra variar.

- Não tenho interesse nisso. Não preciso de mais responsabilidades.

- Amigos são só responsabilidade pra você?

- É preciso de tempo pra conhecer alguém, e sacrifícios pra mantê-los por perto.

- Então é um sacrifício me agüentar também? Haha. Que menino chato você é.

- Você sabe que não é assim. Só não quero ter que prometer dar um pouco do meu tempo pra mais alguém.

- Pensei que você não gostasse de ter tempo de sobra. Porque começa a pensar em coisas que não te agradam.

- É verdade. E ter mais alguém por perto seria só mais uma coisa pra pensar.

- Bom, tanto faz. Se você não quer falar com ele, não fale. Mas eu estou aqui se você precisar falar com alguém, ok?

- Eu não quero que você tenha que carregar o meu peso também.

- Do que adianta eu querer te ouvir se você bloqueou todas as palavras...? – Ela parecia triste de repente. Eu não estou acostumado a ver ela assim... não é como se eu não quisesse ela por perto, é só que... eu...

- Escuta, eu...

- Até amanhã, me avisa se souber algo da Lem. – Lilly me interrompeu ainda com a mesma expressão - Acho que ela não veio porque ficou cansada de ontem...

- Ta bom... Até amanhã.

Lilly pegou sua mochila e saiu. Eu ainda estava guardando minhas coisas, pois parei enquanto falava com ela. Então joguei a mochila nas costas e saí. Realmente, Lem devia estar cansada. Ela provavelmente cabulou aula na casa da avó ou olhando as flores sentada na estrada. A porta de entrada dava no pátio que tinha a estátua do anjo. Quando passei pela porta, percebi de longe que Lilly estava encostada na estátua conversando com Gilbert. De onde eu estava, não dava pra ouvir do que estavam falando. E decidi que era melhor passar longe dali pra que ela não me visse, e tentasse me fazer ser amigo dele. Passei por detrás da estátua, assim Lilly que estava de costas não me veria. Gilbert, no entanto, estava virado pra minha direção, e quando eu passei, ele me viu. Eu virei um pouco a cabeça e olhei pra ele do canto dos olhos. Quando nossos olhos se encontraram, ele sorriu pelo canto da boca, pegou Lilly pela mão, puxou-a para si e a beijou... 

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